kardec - o educador

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quarta-feira, 27 de maio de 2015

                                LEI MENINO BERNARDO
                POR UMA SOCIEDADE MELHOR E DE PAZ

“A forma como fomos tratados quando criança é a mesma como mais tarde tratamos a nossa vida” – Alice Miller.


Sabemos que não é tarefa do direito nos transformar em cidadãos morais ou afetivos, porém ele impõe certos comportamentos, principalmente em razão do temor da sanção (reprimenda, multa e/ou castigo). 

Logicamente o ideal seria que nossa sociedade, em relação à criança e ao adolescente, já tivesse transcendido qualquer alusão a “medidas educativas” regidas pela pedagogia negra, fundada no princípio tosco (embora persuasivo), que impõe a necessidade de fazer o educando passar por castigos físicos (ou tratamentos cruéis) a fim de alcançar, no futuro, o status de “pessoa boa e civilizada”. 

Ignoram esses pais (“cuidadores”) que a criança, principalmente no primeiro setênio, aprende atitudes e comportamentos pela imitação das ações e exemplos repetidos no ambiente físico ao qual ela pertence. Logo, é responsabilidade de quem cuida do menor não ser um modelo de tirania e repressão, mas sim um exemplo de empatia, cooperação e atitudes democráticas. 

A Lei Menino Bernardo (1) tem o condão de estabelecer o direito da criança e do adolescente de serem educados e cuidados sem o uso de castigos físicos ou de tratamento cruel ou degradante. A proposição, de forma clara, aborda a realização de direitos que são inerentes a crianças e adolescentes e indispensáveis a sua dignidade e pleno desenvolvimento. 

Como um Projeto de Lei que visa alterar, e para aperfeiçoar, o Estatuto da Criança e do Adolescente, como finalidade essencial, não busca penalizar os pais, mas sim, quando for o caso, orientá-los a cumprirem determinados procedimentos, como cursos ou orientação psicológica nas hipóteses de castigo físico, por exemplo. A depender da gravidade da situação, o Conselho Tutelar poderá até mesmo acionar a polícia. Entretanto, tudo isso está estabelecido no intuito de proteger o menor em situação de “natureza disciplinar ou punitiva, com o uso da força física que resulte em sofrimento físico ou lesão à criança ou adolescente” (trecho da Lei que define castigo) (2). 

Por resistência ou ignorância dos pais, muitas vezes, o que chamamos de mau comportamento é apenas a única forma que a criança conhece para expressar que suas necessidades básicas não estão sendo atendidas. 

É mau e injusto punir uma criança porque ela responde de uma maneira natural à sensação de uma necessidade importante que é negligenciada pelo adulto. Por esta razão, a punição não só é inadequada a longo prazo, mas é certamente nociva. Além disso, como as crianças aprendem através dos modelos que seus pais representam, o castigo corporal transmite a mensagem de que bater é uma maneira adequada de exprimir seus sentimentos e de resolver os problemas. 

Se uma criança não tem a oportunidade de ver seus pais resolverem os problemas de maneira firme, mas sem o uso da violência, reconhecendo quem ainda se põe indefeso perante a casa e a rua, dificilmente conseguirá ela aprender a fazer deste modo. Como efeito, quando adulta, poderá reproduzir este tipo de paternidade/maternidade incompetente e violenta com as gerações seguintes. 

É fato: muitos ainda querem educar uma criança de forma rude, intolerante, intercalada por “castigo e adulação”. Desprezam que a criança, um ser dependente, irá reprimir-se para acomodar-se às necessidades dos (maus) pais e se conduzirá ao desenvolvimento de um falso Eu – pois o verdadeiro Eu não tem na infância, principalmente, oportunidade de se desenvolver e se diferenciar, porquanto não encontra solo seguro, porém amoroso, para experienciar/manifestar necessidades e apelos infantis. 

Uma educação ética, mas sustentada por um forte alicerce de amor, atenção e respeito, é a única e verdadeira maneira de obter um comportamento recomendável, baseado em poderosos sentimentos e valores, em vez de um “aparente filho (a) obediente e bonzinho (a)”, mas encapsulado unicamente no medo (e no ressentimento). 

Por fim, ainda que prosperem as críticas e os ecos dos resistentes ao avanço do bom senso, se buscamos uma sociedade melhor, se exigimos paz, solidariedade, precisamos formar as novas gerações com novos princípios e valores, cujos projetos pessoais saibam também priorizar, entre outras coisas, o respeito e a tolerância. No fundo, nosso aprendizado coletivo e doméstico está ainda muito implicado com a capacidade de suportar melhor uns aos outros, sem o uso das formas vis da violência…


Notas:

(1) O Projeto de Lei da Câmara 58/2014 foi (re)batizado de Lei Menino Bernardo em homenagem ao garoto gaúcho Bernardo Boldrini, de onze anos, cujo corpo foi encontrado no mês de abril, enterrado às margens de uma estrada em Frederico Westphalen, no Rio Grande do Sul. O pai e a madrasta são suspeitos de terem participação na morte da criança. E esta Lei foi aprovada pelo Senado em junho e está à espera da sanção presidencial.

(2) A Lei Menino Bernardo define tratamento cruel ou degradante como “conduta ou forma cruel de tratamento que humilhe, ameace gravemente ou ridicularize a criança ou adolescente”. Logo, a proposição legal estabelece, portanto, que pais e responsáveis que maltratarem seus filhos, criança e adolescente, sejam advertidos e chamados a participarem do Programa de Proteção à Família, que oferece cursos e tratamento psicológico e psiquiátrico. A vítima do castigo, por sua vez, receberá tratamento especializado.

*Quem aplica as medidas? As medidas são aplicadas pelo conselho tutelar da região onde o menor reside.

**O profissional de saúde, de educação ou assistência social que não notificar o conselho tutelar sobre casos suspeitos ou confirmados de castigos físicos poderá pagar multa de três a vinte salários mínimos, valor que é dobrado na reincidência.



Visite o blog http://corujasabida.wordpress.com/

domingo, 24 de maio de 2015

AQUELES OUTROS DELINQUENTES

Os frutos da delinquência são a loucura de largo porte 
e o sofrimento sem conforto
 


"Há um abismo entre a honestidade perante os homens e a honestidade perante Deus..." -
         Joseph Brê[1] 


Conclamando-nos à indulgência, José, Espírito protetor, diz[2]"lembrai-vos d`Aquele que julga em última instância, que vê os movimentos íntimos de cada coração e, por conseguinte, desculpa muitas vezes as faltas que censurais, ou condena a que relevais, porque conhece o móvel de todos os atos..."

Não resta dúvida quanto ao apoucamento generalizado que o Espírito sofre ao prender-se ao corpo físico. Daí a nítida certeza de que quaisquer julgamentos tornam-se parciais e arbitrários, porque impossível se torna abarcar todas as premissas, isto é, a gênese profundamente arraigada nos tecidos da Alma, donde resultam os inditosos fastos que podemos observar à nossa volta. 

Podemos ilustrar tal situação utilizando-nos da figura do "iceberg": a parte observada acima da linha d’água é insignificante em relação à que está submersa. Assim é como se nos oferecem à visão e compreensão as questões nas quais pretendemos arbitrar. Impossível sermos justos!... Só Deus pode julgar com absoluta precisão e justiça.

Joseph Brê, ao desencarnar, encravou-se em angustiosa situação; inobstante ter sido aparentemente honesto aos olhos dos homens, não o foi perante Deus.

Diz ele - mediunicamente - 

em dorido testemunho feito à sua neta: "aí, entre vós, é reputado honesto aquele que respeita as leis do seu país, respeito arbitrário para muitos.

 Honesto é aquele que não prejudica o próximo ostensivamente, embora lhe arranque muitas vezes a felicidade e a honra, visto o código penal e a opinião pública não atingirem o culpado hipócrita. 

Em podendo fazer gravar na pedra do túmulo um epitáfio de virtude, julgam muitos terem pago a sua dívida à Humanidade! Erro!... Não basta, para ser honesto perante Deus, ter respeitado as leis dos homens; é preciso antes de tudo não haver transgredido as Leis Divinas.

Honesto aos olhos de Deus será aquele que, possuído de abnegação e amor, consagre a existência ao bem, ao progresso dos seus semelhantes; aquele que, animado de um zelo sem limites, for ativo na vida; ativo no cumprimento dos deveres materiais, ensinando e exemplificando aos outros o amor ao trabalho; ativo nas boas ações, sem esquecer a condição de servo ao qual o Senhor pedirá contas, um dia, do emprego do seu tempo; ativo finalmente na prática do amor de Deus e ao próximo.

Confesso, sem corar, que faltei a muitos desses deveres; que não tive a atividade necessária; que o esquecimento de Deus impeliu-me a outras faltas, as quais, por não serem passíveis às leis humanas, nem por isso deixam de ser atentatórias à lei Divina”.

Em estreita conexão com tal depoimento, Joanna de Ângelis nos dá a conhecer a ignorada dimensão onde estão alocados - sem se darem conta - os delinquentes que não se consideram tais. 

Diz a lúcida Mentora[3]: "delinquem os que exploram a ingenuidade dos jovens, arrojando-os nos antros da perdição; os que usurpam as parcas moedas do povo, no comércio escorchante de mercadorias de primeira necessidade; os profissionais liberais, que anestesiam a dignidade, falseando o juramento que fizeram de prometer servir e honrar o sacerdócio que abraçam, indiferentes, porém, aos problemas dos clientes, protelando suas soluções à custa de largas somas com que constroem sólidas fortunas, apesar de transitórias; os que espalham ondas de inquietação, urdindo tramas que aliciam outros partidários de emoção afetada; os que traem afetos que lhes dedicam confiança e respeito; os maus administradores, que malversam os valores públicos e deles se utilizam a benefício próprio, dos seus êmulos e pares; os que conspiram, à socapa, contra as obras de benemerência e amor; e muitos, muitos outros que são arrolados como dignos de bom conceito e que, certamente, não cairão incursos nas legislações humanas, porque disfarçados de homens probos, bem aceitos e acatados...

Não lograrão fugir de si mesmos, nem se libertarão dos conflitos que se lhes instalam n’alma.

Resguarda-te do contágio da delinquência, preservando os teus valores morais, mesmo que sejam de pequena monta; a tua posição social, embora não tenha realce público; a tua situação econômica, apesar de caracterizada pela pobreza; as tuas aspirações, mesmo que de pequeno porte, ligando-te, em pensamento, ao compromisso do bem, que se irradia do Cristo, que programou para o homem e a Terra, em nome do Pai, a felicidade e a harmonia, através de métodos de dignificação, únicos, aliás, que compensam em profundidade e perenemente.

Os frutos da delinquência são a loucura de largo porte, o sofrimento sem conforto, o suicídio, a morte violenta, nefasta...

Vive, desse modo, as diretrizes do Evangelho e nunca te esqueças que, ao defrontar um delinquente, seja em qual circunstância for, será muito melhor ser-lhe a vítima do que seu algoz, conforme o próprio Mestre nos ensinou com o exemplo da Cruz".  

 Rogério Coelho   -  Revista o Consolador

[1] - KARDEC, Allan. O Céu e o Inferno. 51. ed. Rio [de Janeiro]: FEB, 2003, cap. III-2, 2ª. parte.
[2] - KARDEC, Allan. O Evangelho seg. o Espiritismo. 129. ed. Rio [de Janeiro]: FEB, 2009, cap. X, item 16.

[3] - FRANCO, Divaldo. Luz viva. Salvador: LEAL, 1985, cap. XX.

sábado, 23 de maio de 2015


UMA PROVA DO CÉU

O meu ponto preferido em um shopping é a livraria; bem..., conforme o horário, é a praça da alimentação.

É, precisamos alimentar a mente, o espírito e, claro, o corpo. Ambos me dão muito prazer.

Com a COMIDAhttp://cdncache-a.akamaihd.net/items/it/img/arrow-10x10.png precisamos cuidar da qualidade e da quantidade para que o excesso de prazer não nos leve ao desprazer.

O alimento intelectual, também, precisa ser bem escolhido para não ser intoxicado com temas e ideias que levam ao pessimismo, à tristeza, ao desânimo...

 COMIDAShttp://cdncache-a.akamaihd.net/items/it/img/arrow-10x10.png intelectuais que nos fazem bem, há comidas intelectuais que nos enfermam intelectual ou espiritualmente.

A vitrine estava bem sortida. Livros para todos os gostos.

Fui circulando pelos corredores espiando as capas, vendo os lançamentos.

Súbito deparei com a capa de um livro: 

Uma Prova do Céu

Um tema que me interessa. 

Em seguida, li o subtítulo: 

A jornada de um neurocirurgião à vida após a morte. (1)

Interessante o título e muito sugestivo o subtítulo. Li o nome do autor:

Dr. Eben Alexander III.

Pensei: “quem é esse Dr. Eben?”.

 Girei o livro e li na contracapa: 

“Cético, defensor da lógica científica e neurocirurgião há mais de 25 anos, o Dr. Eben Alexander viu sua vida virar no avesso quando passou por uma experiência que ele mesmo considerava impossível.

Vítima de meningite bacteriana grave, ficou em coma por sete dias. 

Enquanto os médicos tentavam controlar a doença, algo extraordinário aconteceu.

Eben embarcou numa jornada por um mundo completamente estranho. 

Sem consciência da própria identidade, foi mergulhando cada vez mais fundo nessa realidade difusa, onde conheceu seres celestiais e fez descobertas transformadoras sobre a existência da vida após a morte e a profunda relação que todos nós temos com Deus.

Aquela experiência o levou a questionar tudo em que acreditava até então. 

Afinal, como neurocirurgião, ele sabia que o que vivenciou não poderia ter sido uma mera fantasia produzida por seu cérebro, que estava praticamente destruído.

“Analisando as evidências à luz dos conhecimentos científicos, o Dr. Eben decidiu compartilhar essa incrível história para mostrar que ciência e espiritualidade podem – e devem – andar juntas“.

Li as linhas atento e admirado. 

Girei nas mãos, novamente, o livro.

 Li, na capa:“Primeiro lugar na lista de mais vendido do The New York Times”.

Logo abaixo: 

A experiência de quase morte do Dr. Eben Alexander é a mais impressionante que já ouvi nas mais de quatro décadas de estudo sobre esse fenômeno” – Dr. Raymond A. Moody Jr.

Tenho por hábito, quando pego um livro para ver, abro-o em uma página, ao acaso, e leio pequeno trecho. 

Foi o que fiz: 

“Cada um de nós está mais acostumado com o próprio pensamento do que com qualquer outra coisa e, no entanto, entendemos muito mais do Universo do que do mecanismo da nossa consciência” (pág. 151, § 1º).

Fechei o livro e pensei: 

vou acompanhar o Dr. Eden em sua experiência de quase morte e senti-lo no retorno à vida.

E ele quase ao final de seu relato afirma: “– Ainda sou cientista, ainda sou médico e, como tal, tenho duas obrigações essenciais: honrar a verdade e ajudar a curar.

 Isso significa contar a minha história” (pág. 165, § 4º).

É uma história comovente que vale a pena conhecer.

 Ressalta a importância da imortalidade da alma e, ainda, como a compreensão dessa verdade altera a vida da pessoa, tornando-a mais justa, humilde, amorosa e solidária.

Referência
Alexander, Eben, Uma Prova do Céu, 1ª Ed. Editora Sextante. Rio de Janeiro.


Ailton Paiva – Revista O Consolador

quarta-feira, 20 de maio de 2015


Os adultecentes

Não me enganei ao digitar a palavra adolescente.

Você já vai entender de onde vem a palavra que dá título a este capítulo.

Como bom leitor, estou sempre com um livro à mão, seja ele espírita ou não. 

Digo isso porque conheço espírita que se vangloria de só ler livro espírita. 

E também se vangloria de só ir ao cinema ou teatro quando a temática é espírita. 

E também só assiste a programas de TV (novelas, jornalísticos...) se o tema for espírita.

 A eles, meus pêsames. 

Estão perdendo a oportunidade de travar conhecimento com ideias riquíssimas que marcam nosso tempo. 

Não entenderam que a Doutrina Espírita existe para libertar consciências, para conectar o homem com a atualidade, a fim de que ela seja enxergada sob a ótica da imortalidade da alma, e não para criar um bando de chatos sectários.

Um livro que muito me impactou e cuja leitura recomendo chama-seConsumido 

– Como o Mercado Corrompe Crianças, Infantiliza Adultos e Engole Cidadãos, do cientista político norte-americano Benjamin Barber.

Que vivemos numa sociedade de consumo, todos sabem.

 E que precisamos consumir para tocar nossas vidas, gerar riqueza e fazer a roda da economia girar, todos sabem também. 

Mas o autor, em plena consonância com os postulados espíritas, condena o consumismo, ou seja, o exagero, e mostra como essa sanha por 


e ter bens para ser alguém transformou crianças em adultos consumidores precoces e infantilizou adultos. 

Complicado? 

Explico: 
o mercado quer que as crianças cresçam logo para que se tornem adultos infantilizados que irão consumir com o próprio dinheiro toda sorte de produtos: 
tênis, camisetas, bonés, pizzas, refrigerantes... 

Daí o termo adultecente (o adulto que se porta como eterno adolescente) em português; kidult em inglês.

Um dos capítulos fala sobre como essa infantilização vem fazendo as pessoas preferirem o fácil em vez do difícil. 

Como assim?

 Não é melhor optar por um método mais fácil de executar uma tarefa? 

Claro que é. 

Quanto mais meios encontrarmos para facilitar nossa vida, melhor.

 Mas não é disso que Benjamin Barber trata.

 Nas palavras do autor,

 “Fácil versus difícil atua como um padrão para grande parte do que distingue o infantil do adulto (...).

 Fácil no reino da felicidade supõe que os prazeres simples triunfam sobre os complexos, enquanto os líderes espirituais e morais em geral dizem o contrário”.

Quem estuda a Doutrina Espírita sabe que não é fácil deixarmos de lado vícios morais e comportamentais e abraçar novos hábitos, adquirir virtudes. 

Tanto não é fácil que não dá para fazer isso em uma só encarnação. 

Por isso, voltamos várias vezes. 

Mas, por imaturidade, por infantilidade, muita gente opta por religiões que oferecem o céu num simples estalar de dedos. 

Afinal, é mais fácil arrepender-se dos pecados e garantir desde já um lugar ao lado de Jesus do que reencarnar várias vezes, burilar o caráter, perdoar inimigos, disciplinar a vontade... 

É complicado e leva tempo. E isso eu é que estou dizendo. 

Trouxe o raciocínio dele para dentro do pensamento espírita.

Para termos ideia de como os adultos andam infantilizados, adultecentes mesmo, vejamos o que o Benjamin Barber observa mais sobre o assunto:

“A nossa sociedade recompensa o fácil e penaliza o difícil. Promete lucros na vida àqueles que cortam caminho e simplificam o complexo a cada oportunidade. Perca peso sem fazer exercícios, case sem se comprometer, aprenda a pintar ou tocar piano com um manual, sem prática ou disciplina, adquira ‘diplomas de faculdade’ pela internet sem curso de aprendizagem ou trabalho, faça sucesso como atleta usando esteroides e chamando a atenção para as suas jogadas. (...) Como é mais fácil bater recordes nos esportes e conquistar a fama como atleta com esteroides do que sem eles! (...) Como é mais fácil mentir sobre o uso de drogas quando interrogado do que confessar a verdade! (...) Estudantes também acham fácil e totalmente justificável colar em provas e plagiar trabalhos escolares. (...) O fato de metade dos casamentos terminar em divórcio tem pelo menos alguma coisa a ver com as atitudes narcisicamente pueris e irresponsáveis que as pessoas levam para o casamento e para o divórcio e, é claro, para os filhos que seus casamentos produzem. (...) mais fácil assistir à TV, onde a imaginação é mais passiva, do que ler livros, onde a imaginação é mais ativa; mais fácil masturbar-se do que estabelecer relacionamentos dentro dos quais a sexualidade recíproca e a sensualidade interpessoal são componentes saudáveis; mais fácil manter um relacionamento sexual arbitrário e inconstante do que um relacionamento envolvendo compromissos. Em suma, é mais fácil ser uma criança do que um adulto, mais fácil brincar do que trabalhar, mais fácil deixar de lado do que assumir uma responsabilidade”.

Vou tomar a liberdade de acrescentar que é mais fácil estacionar o carro em local proibido (portas de garagem, faixas de pedestres, calçadas, vagas para deficientes etc.) do que procurar uma vaga. 

 E também é mais fácil jogar lixo no chão do que numa lixeira, nem sempre por perto. 

Muito mais fácil comer comida rápida e gordurosa (hambúrguer e batata frita, por exemplo), do que preparar algo mais saudável. 

É mais fácil discutir e esbravejar do que conversar de forma adulta. 

É mais fácil enriquecer sendo corrupto do que sendo perseverante e por aí vai.

O mundo está cheio de adultecentes.

Basta prestarmos atenção em muitos artistas e atletas que frequentam o mundo das celebridades. 

Casamentos que acabam com a mesma rapidez com que aconteceram, brigas e escândalos que terminam em delegacias, pessoas que se julgam as mais felizes do mundo simplesmente porque estão enchendo a cara, atores que precisam prestar depoimento numa delegacia e aparecem com um boné na cabeça, mas ao contrário... 

Se não quisermos nos dar ao trabalho de observar os famosos, basta prestarmos atenção em algumas pessoas que conhecemos. 

Familiares, colegas de trabalho, amigos de infância... E até em nós mesmos. 

Ou então, basta ter “olhos de ver” que os grandes sucessos cinematográficos dos últimos tempos são voltados ao “mercado adolescente esticado de pessoas de 13 a 30 anos”, como diz Barber.

E se trouxermos ainda mais o assunto para baixo da luz da imortalidade da alma? É mais fácil odiar do que buscar a reconciliação e perdoar. 

É mais fácil repetir os erros de vidas passadas do que se esforçar para melhorar. 

É mais fácil culpar os outros (supostos Espíritos obsessores incluídos) do que assumirmos nossa responsabilidade nos atos. 

É mais fácil fazer planos diabólicos para obter poder, fama e amor do que optar pelo caminho do trabalho, da renúncia e da abnegação... Enfim, a lista é longa e atesta como o ser humano ainda é imediatista, pueril, inconsequente...

Allan Kardec, em O Livro dos Espíritos, pergunta:

792. Por que não efetua a civilização, 
imediatamente, todo o bem que poderia produzir?

“Porque os homens ainda não estão aptos nem dispostos a alcançá-lo.”

Falta de disposição em alcançar o progresso tem a ver com indolência, preguiça moral, infantilidade. 

Quando avançarmos o suficiente para nos desprendermos do consumismo infantilizante, veremos o quanto podemos fazer por nós mesmos e pelo mundo que nos cerca. 

Enquanto isso, oremos e vigiemos, a fim de não tombarmos nos desvãos da adultecência estupidificante que anda por aí.

Quer saber mais sobre o assunto? Leia o livro. Eu recomendo. É muito bom.


Bibliografia:

1 -   BARBER, Benjamin R. Consumido – Como o Mercado Corrompe Crianças, Infantiliza Adultos e Engole Cidadãos.  Ed. Record, 1ª Ed., 2009, Rio de Janeiro, RJ.
 
2 -     KARDEC, Allan. O Livro dos Espíritos. Federação Espírita Brasileira (FEB), 60ª Ed., 1984, Brasília, DF.

 

 MARCELO TEIXEIRA O Consolador

quinta-feira, 14 de maio de 2015

                                           DOIS CÃES

Um homem que era dono de dois cães ensinou um a caçar e fez do outro seu cão de guarda.

 E, então, cada vez que o cão de caça saía a caçar e trazia alguma presa, o dono atirava um pedaço dela também para o outro. 

Indignado, o cão caçador passou a censurar o cão de guarda, pois, enquanto ele próprio vivia saindo e se estafando, o outro nada fazia e se deliciava com os frutos do esforço alheio. Então o cão de guarda lhe retrucou:

 “Mas não faça críticas a mim, e sim ao meu dono! 

Foi ele que me ensinou não a trabalhar, mas a desfrutar do trabalho alheio”. (Os cães. – Esopo)

Podemos nos apropriar dos dois cães metafóricos de Esopo e ver neles duas instâncias de nossa alma. A que busca e a que retém. Embora lados da mesma moeda, não se confundem em suas ações e motivações intrínsecas.

A parte de nós que caça é aquela que se aventura pelo mundo. Procura conhecê-lo e identificar oportunidades. Fareja coisas e situações que lhe sejam úteis. 

Interage com o ambiente, com as pessoas, objetos e circunstâncias, e procura obter para si o que julga necessário à sua subsistência.

O exercício da caça é perigoso e requer técnica. Não é o simples ver e colher, mas implica em, identificando a presa, preparar a tocaia, o bote e consumação do ato. 

Nessa atividade, inteligência e força são requeridas.

 A estratégia deve ser bem traçada previamente, e opções consideradas, caso falhe o primeiro plano.

 Em várias situações o caçador pode ferir-se seriamente, comprometendo a própria vida – especialmente quando o alvo é cobiçado por concorrentes tão ou mais preparados.

Caçar é uma atividade para fora, para buscar e capturar. É dinâmica e plena de energia. Mente e corpo em atuação harmônica, para que a presa não escape.

A contraparte que guarda, volta-se para dentro e se preocupa com a manutenção e o zelo. 

Está interessada em reter, sem cuidar de buscar mais. Não está atrás de oportunidades fora, mas procura riscos de vazamento e perda. Cuida de possíveis ladrões, sem olhos para presas furtivas.

 Não interage – reage às ameaças. 

Não se estica no espaço para o bote, mas encolhe-se na proteção e no resguardo. Tocaia, armando ratoeiras. Corre sua dose de risco, mas de uma natureza muito diferente da do caçador.

O primeiro cão é ativo; o segundo é passivo.

O equilíbrio das coisas exige as duas performances. 

Parafraseando Eclesiastes, há um tempo para caça, e outro para preservar o que se caçou. 

Perdemos a harmonia quando privilegiamos qualquer um desses aspectos de nossa conduta além da conta justa. Se caçamos demais, roubamos o meio em que vivemos.

Açambarcamos o que não devemos com o discurso equivocado do merecimento –“fiz por onde!” 

Se o que nos move é apenas o prazer da atividade física e o sangue da presa, passamos a predadores nocivos ao meio. Nossa fome nunca é saciada, porque uma presa abatida é estímulo para buscar outra, e mais outra... 

Queremos sempre mais e nunca preenchemos esse oco na boca do estômago, porque buscamos fora o que só podemos encontrar dentro.

Mas esse mal traz consigo seu próprio remédio. Como diz a música popular, 

“quem mata o que não se come, não perde por esperar”. 

Mais cedo ou mais tarde nosso tempo se esgota e vamos nos dar conta de que tanta ação resultou em nada de efetivo para nosso crescimento espiritual.

Por outro lado, se guardamos demais, transformamo-nos em sovinas da vida. Somos como o tolo do Evangelho, que armazenou para as traças e os ladrões, sem perceber a morte iminente, que pode nos acometer em qualquer instante e lugar. 

Ficamos obesos, preguiçosos e lentos, pela excessiva permanência nas torres de vigília. Tememos tudo e todos, como ladrões potenciais das riquezas que julgamos possuir. O menor gesto do nosso vizinho é uma ameaça à nossa tranquilidade.

Olhamos o mundo com os olhos esgazeados da desconfiança e do medo. O afã de reter e proteger nos consome. Nossa vida perde toda a graça e tudo se resume ao zelo com as posses. 

E, assim, não percebemos quando passamos de possuidores a possuídos – nossos bens nos escravizam.

Quando nos dirigimos para nosso trabalho, na busca da sobrevivência, que cão late mais forte dentro de nós? 

O caçador voraz, que de tudo quer se apropriar, ou o vigilante paranoico, que vê ameaça nas menores sombras?

Qualquer um deles que prevalecer tem a capacidade de tornar nossa vida um inferno. Deveríamos escolher o caminho do meio, como já preconizavam os antigos sábios. 

Caçar na justa medida da nossa fome; guardar o que vale a pena ser guardado. O conselho de Paulo, apóstolo, é de grande sabedoria:

“Tudo me é lícito, mas nem tudo me convém. Todas as coisas me são lícitas, mas não me deixarei dominar por nenhuma” (I Cor, 6:12).

Buscar o que necessitamos no mundo é da lei de sobrevivência. Buscar o excesso corre por nossa conta e risco.

Guardar o que realmente nos aproveita é medida de precaução e bom senso – previdência. Armazenar em excesso engorda e entorpece o espírito.

Tanto uma postura quanto outra é muito difícil. Mas quem disse que crescer é fácil? 

Nossa sociedade predispõe e estimula ferozmente o consumismo (caça) desenfreado. 

Ao mesmo tempo, o clima de insegurança que nos envolve, até por consequência do muito ter, torna-nos demasiadamente apegados a coisas e valores passageiros.

 Mas os dois cães habitam em nós – somos nós. Qual dos dois alimentamos mais?

José Lourenço de Souza Neto – O Consolador