kardec - o educador

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sábado, 28 de junho de 2014




A caridade mais urgente

Outro dia um amigo me confidenciou:


– Sabe, Wellington, habituamo-nos, eu, meus filhos e esposa, a praticar o Evangelho no Lar. 
Reunimo-nos todos os domingos e fazemos o estudo evangélico em nossa casa há mais ou menos uns 3 anos. 

Os benefícios foram grandes, não há o que discutir. Mas interessante é que meu filho caçula de 10 anos, de tanto escutar a palavra caridade em nossos estudos, resolveu propor:

– Papai, vamos colocar em prática aquilo que aqui estudamos. Vamos praticar a caridade. Gostaria muito de visitar os velhinhos. Pode ser na Vila Vicentina (Instituição na cidade de Bauru que cuida de idosos). Vamos começar a ir até lá, papai.
E prosseguiu o amigo a comentar:

– Fiquei envergonhado com a proposta de meu filho. 

Embora eu lhe ensinasse os princípios cristãos, estava longe, muito longe de praticá-los. 

Precisei ser alertado pelo garoto de que a caridade que eu tanto falava, para mim, restringia-se apenas a uma palavra solta, sem sentimentos, e proferida maquinalmente em nossos estudos domingueiros. 

Como você sabe, não irei aqui discorrer sobre os caracteres da caridade que são muito mais abrangentes do que uma visita aos domingos, mas, confesso que fiquei mesmo envergonhado. Foi então que começamos a visitar os velhinhos. 

Isto já faz 1 ano.

 Garanto a você: recebemos muito mais do que damos, pois nessas visitas aprendemos na prática que o tempo corre célere e a contagem na Terra é regressiva, meu amigo.

 Um dia partiremos daqui e poderemos enfrentar a enfermidade, dor, solidão, como tantos por aí. Constatei o quão bom tornou-se essa prática em família. 

Estamos mais unidos, juntos e, aprendendo, de fato, que se hoje gozamos de saúde amanhã poderá ser diferente. 

Meus três filhos, todos em idade adolescente, estão vivenciando isso e posso afirmar que mudanças significativas operaram-se no comportamento de todos eles depois desta simples prática de visitar alguém. 

Parece que a vida tomou um outro sentido, mais profundo, amplo. Atualmente, meu amigo, dedicamos o domingo literalmente ao seguinte trabalho: aula prática à tarde (visita aos velhinhos) e teórica à noite com o estudo evangélico.


Ao escutar todo o fato narrado pelo amigo, minhas reflexões fizeram-se mais agudas no tocante à caridade em sua forma primeira que é atender o próximo em suas necessidades mais urgentes.
Lembrei-me então de uma história que consta na obra O Semeador de Estrelas, de Suely Caldas Schubert.

E conta ela que certa vez o médium baiano Divaldo Franco encontrava-se desanimado, pois o ambiente era desolador. Estavam com 16 doentes em um local pequeno onde não mais cabia gente e o médium questionava-se: O que fazer, meu Deus?

Dr. Bezerra de Menezes veio em seu socorro e narrou interessante episódio:

Duas damas muito ricas da sociedade de Moscou foram ao Teatro Bolshoi. Assistiram a uma peça, uma ópera, que retratava a história de um rei cristão que termina louco.

As duas damas, vendo aquela cena choraram, comoveram-se, e todo o teatro também. 
Quando terminou, elas saíram e encontraram um homem, à porta, pedindo esmola.

 Uma delas, comovida, tirou o pesado casaco de peles para dar-lhe, pois ele estava sofrendo o frio da noite de Moscou. A outra, porém, impediu-lhe o gesto, explicando:

– Não faça isso! Quando chegarmos à casa mandaremos cobertores. 

Seu casaco é muito caro, ele não vai valorizá-lo.
Ela deteve o gesto bom e concluiu:

De fato; você tem razão. Vamos fazer como sugeriu.
Vestiu o casaco novamente, dizendo ao homem:
– Daqui a pouco eu lhe mandarei cobertores e agasalhos.
Entraram na carruagem e foram para o palácio.

 Ao chegarem, tomaram chá com biscoitos, deitaram-se e se esqueceram do necessitado. Pela manhã, a dama generosa lembrou-se do mendigo e, chamando um lacaio, recomendou-lhe que levasse os cobertores. 
Quando este chegou ao local o homem estava morto. Morrera congelado pela madrugada.
E explicou o médico dos pobres:

– Enquanto se discute a caridade, o sofredor morre ao abandono. A caridade tem que ser o socorro do momento, depois, discute-se o que fará.
Maravilha de lembrança do notável Dr. Bezerra.

Quanta gente necessita dessa caridade imediata, urgente, sem tempo a perder. De um ouvido amigo, da visita carinhosa, da palavra encorajadora, do abrigo que protege, do abraço que tranquiliza, do telefonema que apazigua as emoções, da sopa servida em tantas instituições, espíritas ou não, espalhadas pelo país.

 Quanta coisa pode ser feita para amainar corações dilacerados pela dor da enfermidade física ou mesmo moral. As oportunidades de praticar essa caridade urgente são imensas para não dizer infinitas.

Coloquei-me a pensar na família de meu amigo e na sugestão de seu filho:

 um gesto simples: visita aos idosos. Que beleza! Fico a imaginar os benefícios advindos de uma iniciativa primária, porém profunda como esta, e que une toda a família em torno de um objetivo nobre:

 Exercitar o amor!

Aquela família compreendeu que a teoria é importante – o estudo do Evangelho no Lar –, mas ela não prescinde da prática. 

Aliaram essas duas maravilhas de Deus – teoria e prática –, e hoje gozam, segundo comentário do próprio amigo, de uma inefável sensação de bem-estar.

Benditos aqueles que já compreenderam esta máxima e dedicam-se à prática do bem e da caridade!


WELLINGTON BALBO   -   O Consolador

terça-feira, 24 de junho de 2014

   A  culpa é da S.P.A.!

 O maior vilão da qualidade de vida do homem contemporâneo
 não é o seu trabalho, nem a competição, mas o excesso de pensamentos 


 “Educar é ser um artesão da personalidade, um poeta da inteligência, um semeador de ideias.” - Augusto Cury
 
Professores estressados, alunos insubordinados, irrequietos, desmotivados, dispersivos... Por quê? 


Será que os mestres de hoje não possuem o “jogo de cintura” pedagógico dos mestres do passado, tão respeitados e idolatrados pelos alunos?!  

Estará faltando aos alunos a velha e boa educação de berço?!

... Nada disso! Todos somos – mais ou menos – vítimas de uma doença dos tempos hodiernos chamada “Síndrome do Pensamento Acelerado” (S.P.A.).

Para entendermos esta síndrome e, consequentemente, podermos adotar não só as atitudes corretas para erradicá-la ou pelo menos minimizá-la em seus corolários danosos e até mesmo para nos posicionarmos profilaticamente diante dela, vamos examinar o livro de um especialista da matéria. 

 Estamos falando da obra: “Pais Brilhantes, Professores Fascinantes”, de autoria do psiquiatra-cientista Dr. Augusto Cury, editado pela Sextante, Rio, onde, especialmente na segunda parte, ele faz uma abordagem da síndrome, elucidando a respeito de suas causas e apresentando um rico cardápio de sugestões para obviar seus nefastos inconvenientes. 

 Iniciemos pelas Causas;

A televisão mostra mais de sessenta personagens por hora, com as mais diferentes características de personalidade: 

Policiais irreverentes, bandidos destemidos, pessoas divertidas etc....  Essas imagens são registradas na memória e competem com as imagens dos pais e professores. 

Os resultados inconscientes disso são graves: os educadores perdem a capacidade de influenciar o mundo psíquico dos jovens. 

Seus gestos e palavras não têm impactos emocionais e, consequentemente, não sofrem um arquivamento privilegiado capaz de produzir milhares de outras emoções e pensamentos que estimulem o desenvolvimento da inteligência. 

Os educadores precisam gritar para obter o mínimo de atenção. 

O pensamento acelerado reduz a concentração e aumenta a ansiedade. Aí está o “x” da questão:

 Os jovens são as maiores vítimas da S.P.A.

A ansiedade da S.P.A. gera uma compulsão por novos estímulos, numa tentativa de aliviá-la.  Embora menos intenso, o princípio é o mesmo que ocorre na dependência psicológica das drogas. 

Os usuários de drogas pesadas ou consentidas (cigarro, álcool) usam sempre novas doses para tentar aliviar a ansiedade gerada pela dependência. 

Quanto mais usam, mais dependentes ficam. É um inexorável e letal círculo vicioso. Igualmente sofrem os portadores da S.P.A. Estão sempre na dependência de novos estímulos.

 Eles ficam irrequietos, se agitam na cadeira, têm conversas paralelas, não se concentram, 
mexem com os colegas, não suportam ficar assentados por muito tempo, estão sempre circulando como se estivessem procurando algo que nunca encontram... 

Mas todos esses comportamentos são, na verdade, tentativas de aliviar a ansiedade gerada pela S.P.A.

Mas não é tão-somente o excesso de estímulo visual e sonoro produzido pela TV que provoca a S.P.A. Esta, (a TV), é apenas a primeira causa. 

A segunda é o excesso de informações e a terceira é a paranoia do consumo. São causas que provocam uma espécie de ebulição mental interna, que se mantém sempre febricitante, não lhes oferecendo espaço de manobra para uma tranquila interiorização. 

Todas essas causas excitam a construção de pensamentos mal alinhavados, desordenados, que pulam dentro do cérebro como se fossem um bando de macacos agitados em intricada floresta, gerando uma psico-adaptação aos estímulos da rotina diária, ou seja: 

uma acentuada perda do prazer pelas pequenas coisas do dia-a-dia.   
Quem sofre da 

S.P.A. não consegue gerenciar os pensamentos plenamente,não consegue tranquilizar a mente, jamais se aconchega nas reconfortantes e dulçorosas vibrações de uma sadia e tranquilizadora meditação ou oração refazente.   
Não nos movendo nenhuma intenção de “colocar panos quentes” ou aconselhara “vista grossa” ou ouvidos moucos ao comportamento indevido dos alunos, deum modo geral, fica aqui um pedido aos professores: 

Tenham mais paciência com seus alunos. Eles não têm culpa dessa agressividade, alienação e agitação em sala de aula. Eles são vítimas...

 Cada aluno carrega – na intimidade – um mundo a ser descoberto e explorado pela sagacidade do mestre fascinante que não se limita a simplesmente instruir, a “empilhar informações”, mas dispõe-se a educar, ou seja, conduzir para fora a joia preciosa ergastulada sob a ganga dos desatinos, fazendo brilhar a luz ínsita em cada personalidade.

Triste e lamentável atualidade
A educação está falida, a violência e a alienação social aumentaram... O modelo educacional do século passado, embora não fosse o ideal, funcionava porque a velocidade dos pensamentos dos jovens há um século era bem menor que o atual..
. O maior vilão da qualidade de vida do homem contemporâneo não é o seu trabalho, nem a competição, a carga horária excessiva ou as pressões sociais, mas o excesso de pensamentos. A S.P.A. compromete a saúde psíquica de três formas: ruminando o passado e desenvolvendo sentimento de culpa; produzindo preocupações sobre problemas existenciais e sofrendo por antecipação.
Estudos recentes revelaram que, no Brasil, 92% dos professores estão com três ou mais sintomas de estresse e 41% com dez ou mais... É um número altíssimo, indicando que quase a metade dos professores não deveria estar em sala, mas internada numa clínica de repouso e refazimento.

Que tipo de educação é esta que estamos construindo e que vem eliminando a boa qualidade de vida de nossos queridos mestres? Damos valor ao mercado de petróleo, de carros, de computadores, mas não percebemos que o mercado da inteligência está falindo!...

Buscando  a  solução
Atuar no aparelho da inteligência é uma arte que poucos aprendem... Ninguém se diploma na tarefa de educar, uma vez que o processo educacional jamais deverá se interromper. Um patamar vencido enseja novos degraus de ascensão intelectual e educacional. Para o sucesso da ação educacional, tanto os pais 
como os professores precisam atuar de forma interativa.

O Dr. Augusto Cury, na obra citada, elenca oito dicas importantíssimas para pais e mestres:

1. Eloquência e Fundamentação – Procurar conhecer o funcionamento da mente; transformar a informação em conhecimento e o conhecimento em experiência. Tal providência contribuirá para desenvolver: a capacidade de gerenciar os pensamentos, administrar as emoções, ser líder de si mesmo; trabalhar perdas e frustrações, superar conflitos;

2. Metodologia e Sensibilidade – Não basta didática apenas. Há que se falar com a voz e com os olhos. Portanto, a voz deve expressar emoção. Cultivando a emoção, estimula-se a concentração e alivia-se a S.P.A. dos alunos. Eles desacelerarão seus pensamentos e viajarão no mundo das ideias. Só assim haverá reversão do foco de interesses do “ter” para o “ser”, da estéticasuperficial para o conteúdo, do consumismo materialista para as ideias transcendentais...;

3. Inteligência Lógica e Emoção – Professores comuns educam a inteligência, mas os professores fascinantes educam a emoção, contribuindo para o desenvolvimento da segurança, da tolerância, da solidariedade, da perseverança, da proteção contra os estímulos estressantes, da inteligência emocional e interpessoal. Há que se enfatizar o conhecimento não só do mundo exterior, mas em especial do mundo íntimo do próprio ser, para que o aluno, conhecendo-se a si mesmo, possa interagir no mundo exterior de forma sensata e equilibrada.

4. Memória e Suporte – A arte de ensinar/educar não consiste tão-somente em“empilhar” informações nos ebulientes cérebros dos alunos, mas saber usar a memória como suporte para a arte de pensar. O objetivo fundamental é formar pensadores e não repetidores de informações. A memória humana é um canteiro de informações e experiências para que cada um de nós produza um fantástico mundo de ideias.

5. Transitoriedade x Perenidade – Pais e mestres não possuem missão temporária, mas devem agir de forma tal a se tornarem inesquecíveis por seus tutelados... Ser um mestre inesquecível é formar seres humanos que farão a diferença no mundo. Portanto, não se pode descurar de desenvolver a sabedoria, a sensibilidade, a afetividade, a serenidade, o amor pela vida, a capacidade de falar ao coração, de influenciar pessoas. Lembremos que as informações são arquivadas na memória, mas as experiências são gravadas no coração.

6. Erradicar conflitos é melhor que corrigir – O professor comum apenas corrige comportamentos agressivos, mas o professor fascinante resolve, soluciona os conflitos em sala de aula.  Este é um tema novo na área da pedagogia. É um novo e sadio posicionamento que contribui para várias coisas como: a superação da ansiedade, resolução de crises interpessoais, socialização, proteção emocional, resgate da liderança do “eu” nos focos detensão. Entre corrigir comportamento e erradicar conflitos em sala de aula, há uma distância maior do que imagina a nossa nobre educação.   O afeto e a inteligência curam as feridas da alma e reescrevem as páginas fechadas do inconsciente.  Pais e mestres precisam – urgentemente – aprender a dar “tapas”com luvas de pelica, direto no coração.

7.  Profissão e Vida – Paralelamente à educação voltada para o aspecto profissionalizante, é necessário enfatizar o preparo para a vida, que é um aspecto bem mais amplo... O caminho é contribuir para desenvolver a solidariedade, a superação de conflitos psíquicos e sociais, espírito empreendedor, capacidade de perdoar, de filtrar estímulos estressantes, de escolher, de questionar, de estabelecer metas... Promover a autoestima objetivando a auto liderança.

8. Flexibilidade no Trabalho e na Vida – Só não muda de ideia quem não é capaz de produzi-la. A flexibilidade e o posicionamento antidogmático, desapegado das tradições ancilosantes, devem merecer uma atenção especial de pais e mestres. Sob a ação de intensa ventania, o caniço se amolga, mas não se quebra porque é flexível, enquanto a árvore vetusta, enrijecida, vem abaixo.
Há que se extrair de cada lágrima, de cada frustração, de cada limitação, uma lição de vida, conquistando, assim, os próprios lastros e referenciais. Se não reconstruirmos a educação, as sociedades futuras se tornarão um grande hospital psiquiátrico. As estatísticas já estão aí demonstrando o triste “status quo” atual, onde o normal é ser estressado, e o anormal é ser saudável.  A reversão de tais dados atrela-se, evidentemente, a mais amplos descortinos e desdobramentos da delicada e sensível malha educacional.

Não se esqueçam, pais e professores, que os senhores não são apenas frágeis pilares da escola clássica, mas pilares da escola da vida. Tenham sempre em mente que os computadores podem gerar gigantes na ciência, mas crianças na maturidade. 

Os educadores, apesar das suas dificuldades, são insubstituíveis,porque a gentileza, a solidariedade, a tolerância, a inclusão, os sentimentos altruístas, enfim, todas as áreas da sensibilidade não podem ser ensinadas por máquinas.
Construir um cidadão engajado, consciente, probo, equilibrado, justo, bom, humano, benevolente, respeitador, indulgente, abnegado, modesto, humilde, amoroso, cumpridor de seus deveres, tal é a finalidade da ação educacional.  

Rogério Coelho – O Consolador


quarta-feira, 18 de junho de 2014

                                    Capacidade de amar


Naquela noite, na sala de uma emergência médica, o jovem estudante aprendia a arte da medicina. Depois de atender alguns pacientes com quadros psiquiátricos descompensados, chegou a vez de uma senhora que muito lhe chamou atenção. Vestida com roupas extravagantes e transparecendo uma sexualidade exacerbada, ela adentrou o consultório cantando de modo bem estridente e caricatural, ao mesmo tempo em que era acompanhada por uma irmã e a filha mais velha.
 
Porém, a certa altura do atendimento, estafada, a irmã falou enfaticamente com a sobrinha, referindo-se à transtornada mulher – eu não aguento mais, não! Agora que você completou dezoito anos, vai passar a cuidar também dela.
Foram tomadas todas as condutas diagnósticas e terapêuticas adequadas ao caso e, depois disso, o futuro esculápio, procurando entender melhor o enquadramento familiar, indagou à jovem moça - há quanto tempo tua mãe tem esta doença?.

Fez-se um silêncio breve, e, parecendo ter passado por uma retrospectiva de vida, a menina respondeu – faz tanto tempo que eu nem me lembro, “desde que eu me entendo por gente ela é assim”.

Não houve, contudo, tempo para ela terminar a frase. Automaticamente, as lágrimas rolaram em seu rosto de modo convulsivo. Um silêncio dominou o ambiente e, até mesmo a paciente, diminuindo o estado de agitação em que se encontrava, deixou-se emocionar...

A fala de Jesus, indicando que o maior dos mandamentos seria o de amar ao próximo como a si mesmo, bem como a Deus acima de tudo, é  de uma veracidade singular. Para se amar o Criador, que é ainda um grande desconhecido, é necessário amar a sua criação, sobretudo a mais encantadora, que é o ser humano, o próximo, portanto. Entretanto, para se amar o outro, imprescindível é se amar.

Sem o auto amor, não se dispõe de matéria-prima para amar o semelhante, muito menos o desigual. Somente se consegue doar abundantemente aquilo que se possui em abundância.

É por isso que pessoas muito rígidas consigo tendem a ser inflexíveis nas relações diárias; aqueles que não conseguem se perdoar de modo algum passam a ser rancorosos em demasia com os outros; e muitos que se culpam e se torturam mentalmente, muitas vezes, são implacáveis com o próximo.

Nesta perspectiva, observa-se que, até mesmo o amor de mãe, considerado quase sempre como o que há de mais divino, não consegue ser adequadamente demonstrado em situações de intensa dor, insatisfação e vazio pessoais. Em reiteradas ocasiões, assim, os filhos são convidados pela vida, desde tenra idade, a inverterem os papéis e, ao invés de receberem mimos, passarem a ser cuidadores dos pais.

Em tais circunstâncias, pode-se optar pelas vitimização, revolta ou mágoa; ou, então, tentar se preencher de um saudável autoamor, espalhando luzes pela existência.

Certamente, esta segunda via é mais difícil porque faz um convite à transcendência, ou seja, ao indivíduo ir além do que se acha capaz; no entanto, seguramente, é o que conduz à paz e à saúde duradouras.

Para tanto, não há uma receita única infalível; antes, cada um deve encontrar seu próprio caminho, agregando ajudas nos saudáveis ramos da sabedoria humana. 

Leonardo Machado - O Consolador


sexta-feira, 13 de junho de 2014

                           Amor à causa e à Casa

Não posso esquecer-me da primeira vez em que adentrei uma Casa espírita, em busca de respostas que me martelavam a mente havia anos. 

E mais do que isto, não deixo de agradecer a Jesus e aos bons Espíritos que me guiaram até lá, porque não somente encontrei todas as respostas que queria, mas encontrei também o consolo, a esperança e a alegria que esta abençoada doutrina nos oferece.

Ao longo dos anos, desde a sua criação, o Espiritismo passou por várias fases, e nos últimos anos vem ganhando cada vez mais aceitação do público em geral. As perseguições e preconceitos de outrora cedem lugar a uma compreensão e respeitabilidade visível e crescente.

 Com isto, acentua-se a nossa responsabilidade e o compromisso com a causa e, em especial, com a Casa espírita.

Amamos a causa por ser ela a fonte de nossa felicidade, pois nas Conclusões deO Livro dos Espíritos Allan Kardec afirma que “somos felizes pela certeza que temos na vida futura”.

O Espiritismo como o Consolador prometido por Jesus se constituiu na base sólida de nossa fé, fornecendo-nos as respostas que o homem tanto busca no decorrer da vida, como de onde viemos e para onde vamos.

 Extinguiu através da fé raciocinada o monstro da morte, nos dando a consciência de que somos imortais, e matou a imagem do fantasma aterrorizante do fogo eterno. 

Portanto, no atual contexto do mundo em que o avanço da Ciência não só desvenda mistérios, desfaz mitos e antigas crendices, a causa espírita se encaixa perfeitamente porque é Ciência, Filosofia e Religião. 

Quando dizemos Ciência vemos a sua face flexível, experimental e, segundo o próprio Kardec em sua obra A Gênese, o Espiritismo se mantém aberto às mudanças impostas pelo tempo.

Como Filosofia vemos o rompimento com o mito, haja vista ser uma doutrina desprovida de simbolismos, ritualísticas e dogmas, assim como sua ênfase constante no uso da razão. 

E, enfim, como religião não temos outro modelo e guia senão o Cristo, como nos ensina O Livro dos Espíritos.

 Não há como abraçar a causa espírita sem a conjunção e aplicação destes três quesitos, porque desencadearíamos um profundo desequilíbrio, especialmente no que diz respeito à figura central do Cristo. 

Sem Ele estaríamos estéreis em nossa essência, como sepulcros caiados, mortos-vivos vítimas da nocividade da letra desprovida do espírito que vivifica, ou uma nação de fariseus perdida no tempo.

Impossível amar a causa sem amar a Casa. 

Imagine um lugar multifuncional, onde há as atividades de uma escola, de um hospital, um abrigo, enfim, uma base para o desenvolvimento de diferentes formas de trabalho no bem, em auxílio aos mais necessitados, e isto, não somente com referência aos encarnados, mas um atendimento que transponha as barreiras da matéria alcançando igualmente os desencarnados.

O que nossos olhos físicos podem vislumbrar no cotidiano de uma Casa espírita é apenas uma pequena parcela das atividades realizadas a nível espiritual.

Em cada uma das reuniões há o envolvimento de Espíritos trabalhadores, num compromisso muito maior do que o nosso, pois muitas vezes não sabemos valorizar o suficiente. 

São irmãos abnegados atuando anonimamente para o bom andamento das atividades, acolhendo a um número bastante grande de Espíritos necessitados de socorro e aprendizado. 

Nisto vemos o quanto precisamos amar a Casa espírita, já que fomos um dia conquistados pelo valor da causa.

O preço da boa convivência pagamos com amor, pagamos abrindo mão de nosso personalismo, deixando de lado os melindres, egoísmo e orgulho, porque na verdade estamos todos apenas a caminho da evolução, e não chegaremos lá caminhando sozinhos.

JULIANA DEMARCHI  o Consolador




segunda-feira, 9 de junho de 2014


A palmadinha, ontem e hoje

Eu devia ter mais ou menos uns sete anos, criança de tudo. 

Falador, turbulento, não parava quieto por cinco minutos. 

Hoje, as crianças não param quietas por cinco segundos!
Gozava as férias em casa de uma avó. 

Num dia x, alguns tios se reuniram com amigos. 

Falavam de música, e havia alguns instrumentos por perto. 

Eu, que já mexera em vários deles, com meus dedinhos insolentes, e fora repreendido em todas as ocasiões, agarrei um pandeiro e, idiotizado, sentei-lhe a mão descontrolada, como se estivesse tentando “tocar” algo.

Foi a conta. Um dos meus tios tomou o instrumento da minha mão e, com a sua, deu-me uma palmada na região convexa chamada glútea. Confesso, com toda a honestidade, não doeu nada. 

Mas, só então, com aquele impacto, percebi (me toquei) que estava sendo inconveniente, mal-educado, e confesso, também com toda a sinceridade, senti vergonha, apesar da pouca idade, por estar atrapalhando a atividade dos meus tios, que já faziam bastante em me aceitar numa reunião de adultos.

Passados cinco minutos, eu, emburrado num canto, recebi do meu tio “agressor” um sorriso brincalhão e um abraço conciliador.

Aquela palmada, naquele instante, sem violência alguma, sem agressão (não me senti violentado, nem agredido), resolveu prontamente uma situação que estava saindo de controle. 

E, de minha parte, fiquei com a lição compulsória que me cabia e que lembro, nitidamente, até hoje, passados cinquenta e dois anos. 

E asseguro que se passou exatamente como conto agora.

Esta situação foi bem diferente de outra que vivi, também muito novo, talvez com os mesmos sete anos de idade. 

É preciso dizer que dava muito trabalho aos meus pais, pela minha rebeldia.

Após um dia todo causando perturbação, fui alvo da indignação de minha mãe que, no limite, descarregou todo o seu cansaço sobre a minha cabeça, em forma de croques continuados e doloridíssimos.

 Em seguida, botou-me nu, exposto num canto da varanda, onde cheguei a ser visto e ridicularizado por um vizinho.

Creio que dá para perceber a diferença entre um episódio e outro.

O mundo não está como está, hoje, por causa da palmada, senão educativa, pelo menos corretiva (do primeiro episódio); 

mas as relações humanas podem sofrer influência danosa por causa da agressividade e tortura moral do segundo.

Diante disso, fica evidente que a violência (do segundo episódio) é contrária  não só à atitude cristã, como também aos mais básicos princípios da civilidade, que estamos buscando a duras penas. 

Se pretendemos ajudar na implantação da vida melhor na Terra, baseados nas orientações morais de Jesus, uma das coisas a fazer, e fundamental, é educar os Espíritos que recebemos como filhos, de modo a aproximá-los de Deus (ESE, XIV, 9).

Enquanto buscamos a melhor maneira de como bem educar nossas crianças, principalmente na primeira infância, onde as más inclinações brotam nelas, reveladas junto com a inteligência que admiramos tanto, deixemos a palmadinha – já que os tempos são outros –, para aqueles que quiserem usá-la, assumindo com isso, legalmente (1), a responsabilidade por seus atos. 

Moralmente, Deus saberá julgá-los, pela intenção, com total justiça.

Quanto aos croques e torturas morais, eliminemo-los quanto antes. 

E já será um grande avanço.
 
(1) Foi aprovado na Câmara dos Deputados e seguiu para o Senado projeto de lei que penaliza pais e educadores – inclusive com a possibilidade de cadeia (?) – que forem surpreendidos ou denunciados, infligindo quaisquer castigos físicos aos filhos. 

A lei ficou conhecida como “lei da palmada”.

Claudio Bueno da Silva - O consolador