kardec - o educador

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sábado, 26 de março de 2016


 
                                         OS DOIS CÃES

Um homem que era dono de dois cães ensinou um a caçar e fez do outro seu cão de guarda.
E, então, cada vez que o cão de caça saía a caçar e trazia alguma presa, o dono atirava um pedaço dela também para o outro. Indignado, o cão caçador passou a censurar o cão de guarda, pois, enquanto ele próprio vivia saindo e se estafando, o outro nada fazia e se deliciava com os frutos do esforço alheio.
Então o cão de guarda lhe retrucou: “Mas não faça críticas a mim, e sim ao meu dono! Foi ele que me ensinou não a trabalhar, mas a desfrutar do trabalho alheio”. (Os cães. – Esopo)

Podemos nos apropriar dos dois cães metafóricos de Esopo e ver neles duas instâncias de nossa alma. A que busca e a que retém. Embora lados da mesma moeda, não se confundem em suas ações e motivações intrínsecas.

A parte de nós que caça é aquela que se aventura pelo mundo. Procura conhecê-lo e identificar oportunidades. Fareja coisas e situações que lhe sejam úteis.
Interage com o ambiente, com as pessoas, objetos e circunstâncias, e procura obter para si o que julga necessário à sua subsistência.

O exercício da caça é perigoso e requer técnica. Não é o simples ver e colher, mas implica em, identificando a presa, preparar a tocaia, o bote e consumação do ato.
Nessa atividade, inteligência e força são requeridas. A estratégia deve ser bem traçada previamente, e opções consideradas, caso falhe o primeiro plano.
 Em várias situações o caçador pode ferir-se seriamente, comprometendo a própria vida – especialmente quando o alvo é cobiçado por concorrentes tão ou mais preparados.

Caçar é uma atividade para fora, para buscar e capturar. É dinâmica e plena de energia. Mente e corpo em atuação harmônica, para que a presa não escape.

A contraparte que guarda, volta-se para dentro e se preocupa com a manutenção e o zelo. Está interessada em reter, sem cuidar de buscar mais. Não está atrás de oportunidades fora, mas procura riscos de vazamento e perda.
Cuida de possíveis ladrões, sem olhos para presas furtivas. Não interage – reage às ameaças. Não se estica no espaço para o bote, mas encolhe-se na proteção e no resguardo. Tocaia, armando ratoeiras.
Corre sua dose de risco, mas de uma natureza muito diferente da do caçador.

O primeiro cão é ativo; o segundo é passivo.

O equilíbrio das coisas exige as duas performances. Parafraseando Eclesiastes, há um tempo para caça, e outro para preservar o que se caçou.
Perdemos a harmonia quando privilegiamos qualquer um desses aspectos de nossa conduta além da conta justa. Se caçamos demais, roubamos o meio em que vivemos.

Açambarcamos o que não devemos com o discurso equivocado do merecimento – “fiz por onde!”.
Se o que nos move é apenas o prazer da atividade física e o sangue da presa, passamos a predadores nocivos ao meio. Nossa fome nunca é saciada, porque uma presa abatida é estímulo para buscar outra, e mais outra...
Queremos sempre mais e nunca preenchemos esse oco na boca do estômago, porque buscamos fora o que só podemos encontrar dentro.

Mas esse mal traz consigo seu próprio remédio. Como diz a música popular, “quem mata o que não se come, não perde por esperar”.
Mais cedo ou mais tarde nosso tempo se esgota e vamos nos dar conta de que tanta ação resultou em nada de efetivo para nosso crescimento espiritual.

Por outro lado, se guardamos demais, transformamo-nos em sovinas da vida.
Somos como o tolo do Evangelho, que armazenou para as traças e os ladrões, sem perceber a morte iminente, que pode nos acometer em qualquer instante e lugar.
 Ficamos obesos, preguiçosos e lentos, pela excessiva permanência nas torres de vigília.
Tememos tudo e todos, como ladrões potenciais das riquezas que julgamos possuir. O menor gesto do nosso vizinho é uma ameaça à nossa tranquilidade.
 Olhamos o mundo com os olhos esgazeados da desconfiança e do medo. O afã de reter e proteger nos consome.
Nossa vida perde toda a graça e tudo se resume ao zelo com as posses.
E, assim, não percebemos quando passamos de possuidores a possuídos – nossos bens nos escravizam.

Quando nos dirigimos para nosso trabalho, na busca da sobrevivência, que cão late mais forte dentro de nós? O caçador voraz, que de tudo quer se apropriar, ou o vigilante paranoico, que vê ameaça nas menores sombras?

Qualquer um deles que prevalecer tem a capacidade de tornar nossa vida um inferno. Deveríamos escolher o caminho do meio, como já preconizavam os antigos sábios.
 Caçar na justa medida da nossa fome; guardar o que vale a pena ser guardado. O conselho de Paulo, apóstolo, é de grande sabedoria:
“Tudo me é lícito, mas nem tudo me convém. Todas as coisas me são lícitas, mas não me deixarei dominar por nenhuma” (I Cor, 6:12).

Buscar o que necessitamos no mundo é da lei de sobrevivência. Buscar o excesso corre por nossa conta e risco.

Guardar o que realmente nos aproveita é medida de precaução e bom senso – previdência. Armazenar em excesso engorda e entorpece o espírito.

Tanto uma postura quanto outra é muito difícil. Mas quem disse que crescer é fácil? Nossa sociedade predispõe e estimula ferozmente o consumismo (caça) desenfreado.
Ao mesmo tempo, o clima de insegurança que nos envolve, até por consequência do muito ter, torna-nos demasiadamente apegados a coisas e valores passageiros.
Mas os dois cães habitam em nós – somos nós.
Qual deles  alimentamos mais?

JOSÉ LOUREIRO – O CONSOLADOR