kardec - o educador

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sexta-feira, 28 de setembro de 2012


Os ombros largos do próximo

A revista VEJA, edição 2269 de 16/05/2012, páginas 112 a 114, traz uma interessante reportagem sobre a arte de culpar os outros ou, em termo mais vulgar, a arte de encontrar um bode expiatório. 
Vamos a um trecho:
 “Nada paralisou mais a inteligência do que a busca por bodes expiatórios”, escreveu o historiador britânico Theodore Zeldin no livro Uma História Íntima da Humanidade, de 1994.
 Paralisou, e continua a paralisar. 
A tentativa de jogar a culpa por uma situação indesejada – de desastres naturais e guerras, de crises econômicas e epidemias – nas costas de um único indivíduo ou grupo quase sempre inocente é uma prática tão disseminada que alguns estudiosos a consideram essencial para entender a vida em sociedade. 
 Se observarmos à nossa volta, encontraremos muitos exemplos. 
Quando um adulto interrompe a briga de duas crianças, uma aponta o dedo inquisidor para a outra: “Foi ela quem começou!”. 
De maneira semelhante, a campanha para as eleições presidenciais na França, encerradas na semana passada com a vitória do socialista François Hollande, foi pautada em parte pelas retóricas anti-imigração e antiunião europeia, como se um fator qualquer vindo de fora fosse o bastante para explicar o desemprego no país. Nos Estados Unidos, o culpado da vez é o 1% mais rico da população, que paga proporcionalmente menos impostos do que a classe média. 
Na América Latina, a tradição populista não existiria sem a invenção de inimigos imaginários internos (as oligarquias, os bancos, a imprensa) e externos (o FMI, os Estados Unidos). 
A ditadura cubana sustenta-se há mais de quatro décadas sobre a fantasia de que a miséria de sua população se deve ao embargo ameriacano à ilha, e não ao fracasso de seu sistema comunista.
Continua a reportagem: No livro intitulado em português, traduzido do inglês – (Bode Expiatório – Uma História da Prática de Culpar Outras Pessoas), publicado recentemente nos Estados Unidos e na Inglaterra, o autor, Charlie Campbell, defende a tese de que cada ser humano tende a se considerar melhor do que realmente é, e por isso tem dificuldade de admitir os próprios erros. “Adão culpou Eva, Eva culpou a serpente, e assim continuamos assiduamente desde então”, escreveu Campbell.
Infelizmente, como isso é frequente nos dias atuais, não é verdade? Muitas pessoas tidas como possíveis responsáveis em falcatruas as mais diversas procuram um bode expiatório para eximirem-se de culpa. 
Se forem vários os “bodes”, tanto melhor. No terreno particular isso também acontece.
 Ou será que não? Por exemplo, quando a paz no lar é comprometida devido a uma discussão perfeitamente evitável entre os seus componentes, sempre foi o outro lado quem deu início à confusão. 
Quando um filho é envolvido pelas drogas ilícitas, a culpa é só do traficante. Quando um velho vai parar no asilo, a culpa é dele. 
Quando uma criança é abandonada, procura-se o responsável cujo autor da “proeza” é sempre o outro, o tal de bode expiatório. 
Quando um casal se separa, os motivos foram sempre fornecidos pela outra parte. 
O homem está absolutamente correto e a mulher também. Aliás, nas brigas de casais, é uma das raras ocasiões em que podemos encontrar um ser humano perfeito porque nunca nenhum dos dois está errado. 
Isso quando não sobra culpa para os filhos, as maiores vítimas de uma separação. 
Quando no serviço alguma coisa dá errado, a culpa é do patrão que paga mal. Ou será do funcionário que não cumpre com suas obrigações? 
E no trânsito, você já viu como só tem gente certa? 
A culpa é sempre do outro, do tal do bode expiatório, que pode ser até um sinaleiro que funciona mal ou de uma placa de sinalização ausente ou mal colocada, nunca do real culpado.
Agora, meu amigo e minha amiga, embora os Espíritos não tenham ombros como entendemos no sentido material do termo, haja ombro neles para aguentar a culpa que a eles imputamos!
Falta paz no lar? 
Debite na conta dos Espíritos. Aconteceu um acidente? 
Jogue nos ombros perispirituais dos Espíritos. É. Para jogar no ombro do coitado do Espírito, até ombro perispiritual serve, como não?  
Os filhos estão indo mal na vida? 
Não vacile, debita na conta (ou nos ombros?) dos Espíritos. Brigou com a sogra? 
Espíritos que se cuidem. Desentendeu-se com a esposa ou com o marido? 
Ah! Não existem dúvidas.
 Coloca nos ombros deles! É. Dos Espíritos! 
É correto que O Livro Dos Espíritos nos ensina que eles participam intensamente de nossas vidas até o ponto de, se permitirmos, sermos dirigidos por eles, mas gente, em nossos ombros não vai culpa nenhuma?
 

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

 

Considerações sobre o suicídio 

Parte 1 
 


 Embora tema complexo, trago-o à baila sensibilizada pela notícia da qual tomei conhecimento de modo tardio há algum tempo, acontecida em primeiro de agosto do ano de 1993 com um ator inglês que me encantou por sua interpretação magnífica do personagem Pierre Gringoire, o Poeta Maior em Notre Dame de Paris, na sua versão televisiva do ano de 1982 - Gerry Sundquist. Por razões que desconheço, nesse dia nefasto e já longínquo ele se suicidou, aos trinta e sete anos, em Norbiton Train Station, Londres, Inglaterra.
No entanto, a intenção ao discorrer sobre tal assunto se prende, antes, à devida exaltação da vida. Esse ator, ao que me parecia de escola sheakespeareana, era um excelente e talentoso artista, como se evidenciava nesse e em outros trabalhos seus no mundo da arte dramática. A pergunta que fica é a razão de tal ato extremo – ou razões, provavelmente muitas, uma autêntica amálgama intrincada.
O que leva alguém assim, supostamente bem-sucedido, famoso, com o seu trabalho reconhecido a nível internacional, belíssimo, a ver-se encurralado num beco sem saída tão absoluto a ponto de não achar nenhum respiradouro; a ponto de lhe ser mesmo indiferentes as suas grandes realizações como ser humano e como profissional, a admiração de muitos; o respeito e o reconhecimento pelo seu trabalho; e o amor de tantos que ficaram, certamente em estado lamentável de sofrimento decorrente da perda de um ser que lhes é caro, e que voluntariamente deixou os cenários do mundo desta forma brusca, intempestiva, e extremamente infeliz?
Desejo abordar um pouco esta questão do ponto de vista espírita – o único, a meu ver, que oferece sobre este complexo drama humano, diariamente presenciado em todo canto do planeta, alguma luz, algum esclarecimento lógico e plausível. 
André Luiz fala sobre a situação dos que creem
firmemente no nada após a vida física
 
O que tudo indica é que os que assim envidam tal atentado crucial contra a sua expressão de vida, vencendo em si mesmos a maior das resistências, qual seja o instinto de sobrevivência que, em circunstâncias normais, nos leva a perseverar e lutar pela vida até o nosso último fôlego – estas pessoas se veem vitimadas por um estágio de sofrimento crucial no seu universo íntimo: alguma situação desesperadora, seja de ordem material ou emocional; uma falência financeira crítica, uma perda amorosa aparentemente insuportável, ou mesmo um estado de tédio agudo: uma falta de objetivos avassaladora, para que estes indivíduos admitam a continuidade de uma existência que gradativamente perdeu as suas cores; que foi aos poucos se esvaziando, e paralisando numa letargia pétrea, aterrorizadora – e, com isso, perdendo todo o seu sentido.
Sim; o que testemunhamos nestes casos nos aparenta, na essência, um sem-número de situações provocadas por um extremo qualquer de frustração intransponível, crônica – ao menos da ótica daqueles que não enxergam mais atalhos nem alternativas, a um tal grau alucinatório, que lhes sobra apenas uma via de mão única: eliminar a si próprios; a ilusão de que, acabando com a existência que lhes parece miserável e desgraçada a um tal ponto irreversível, extermina-se também este estado terminal de sofrimento, para o qual não encontram mais forças nem razões que justifiquem ter que suportá-lo por mais tempo.
Lembro-me de um dos livros do Espírito André Luiz, psicografado pelo saudoso mestre Chico Xavier, onde ele se demora ouvindo a explicação minuciosa de um de seus orientadores da cidade espiritual Nosso Lar, a respeito do estado petrificado dos Espíritos que aportam na vida invisível debaixo dos lastimáveis efeitos da sua crença arraigada, enquanto reencarnados, de que, uma vez transpostos os limiares da transição corpórea, tudo haveria de acabar-se. A situação dos que creem firmemente no "nada" após a vida física, e que, obedecendo, na sua constituição de seres eternos, às iniludíveis leis que regem a Vida na sua expressão maior no Universo, atraem para si exatamente o estado no qual creem intransigentemente, segundo os parâmetros da causa e do efeito. O orientador explica a André Luiz que aquelas almas que ali se encontram naquele aspecto inerte, enrijecido, como se estivessem "mortas para a eternidade", não se acham mortas de fato – apenas expressam em si mesmas aquilo em que creem, e que defenderam durante todo o tempo, dominados pela visão míope do funcionamento maior da existência, de que se dispõe durante o período de condicionamento sensorial rígido e limitante da reencarnação.  
André Luiz nos relata ter sido classificado para
sua surpresa
como suicida 
Com o tempo, o lampejo de consciência, imbatível e inexorável, e que de si próprio se impõe, desde o minério adormecido nos primórdios da evolução, até os cumes de expressão vital dos anjos nas dimensões mais evoluídas do Cosmos – este lampejo também ali, naquelas almas enrijecidas, sobrepõe seu brado de convocação à realidade maior das coisas, que afinal os impulsionará ao despertamento natural, e à natural transmutação de seus conceitos noutros mais gratos, mais fidedignos à nossa gloriosa condição de filhos da eterna divindade.
Pois assim também se dá no funcionamento da Lei para com o suicida, este querido irmão de jornada merecedor da nossa melhor disposição amorosa, para lhe estender a luz da compreensão, da prece e do auxílio. Porque, se em situação ainda agravada ao se envidar tal atentado contra si mesmo em fase prematura da vida, se achará este indivíduo preso, durante extenso intervalo de tempo, à vivência inexorável daquele ápice de loucura e de sofrimento a que se abandonara na hora do gesto extremo. Como nada mais vislumbrara para além daquele instante; como nenhuma alternativa, nenhum atalho, nenhuma escolha a mais ou luz no fim do túnel admitia para si, de modo tão definitivo, o suicida fica, assim, preso dessa hipnose autoimposta: enrodilhado na insistência voluntária do seu estado mórbido de alma, e na visão repetitiva implacável do seu gesto extremo de violência contra si, em busca de uma libertação que, para seu sumo desvario desde então, não encontra, agravando os sofrimentos tidos como insuperáveis, mas que, da forma mais lastimável, descobre serem passíveis ainda de agravamento num tal estado indescritível de tormento espiritual.
Em Nosso Lar, André Luiz nos relata ter sido classificado – para sua surpresa – como suicida pelos técnicos da espiritualidade amáveis que o acolheram na cidade etérea memorável, descrita nas obras de Chico Xavier; e por razões talvez que mais amenas: pela sua incúria para com a sua saúde enquanto nas paisagens materiais, o que o levou a contrair as moléstias que o vitimaram ao ponto da transição, considerada prematura pelos devotados mentores. André Luiz nos descreve, textualmente: "Suicida! Suicida! Criminoso infame!" – gritos assim cercavam-me de todos os lados (...). Tais objurgatórias (...) perturbavam-me o coração. Infeliz, sim; mas, suicida?! (...) Sim (...) esclareceu o médico, demonstrando a mesma serenidade superior (...) – Talvez o amigo não tenha ponderado bastante. O organismo espiritual apresenta em si mesmo a história completa das ações praticadas no mundo (...). Vejamos a área intestinal. A oclusão derivava de elementos cancerosos, e estes, por sua vez, de algumas leviandades do meu estimado irmão, no campo da sífilis". 
O suicida é, antes de tudo, um doente da alma,
merecedor, pois, de nosso melhor carinho
 
Vemos no excerto o ensinamento da realidade maior no que se refere ao chamado suicida inconsciente, que conduz sua vida material à conclusão precoce em decorrência de um padrão de conduta leviano para com os cuidados devidos à saúde orgânica, diferente daquele que, via gesto brutal e extremo, dá fim intempestivo e dramático aos dias de modo até certo ponto lúcido, embora claramente dominado pelo que podemos facilmente admitir como um doentio estado alucinatório hipnótico que o subjuga à morbidez derrotista imbatível, à qual afinal sucumbe. Entretanto, se diferem as determinantes, os resultados se fazem equânimes. Se o estado orgânico do corpo sutil espiritual acusa e realça claramente os efeitos derivados das causas situadas na negligência com que o indivíduo se descuida de seu veículo físico, seu precioso instrumento de expressão nos palcos materiais para que bem cumpra seu fugaz compromisso no planeta, durante um mero momento na eternidade, também em quem atenta contra o seu corpo na lastimável ilusão de fim perpétuo, de si próprio, quanto dos problemas tidos como cruciais e invencíveis que o flagelam, se opera o triste resultado do ato impensado e sumamente enganoso.
Fica, pois, o suicida preso ao local do seu gesto ensandecido durante todo o resto do tempo que lhe faltaria à conclusão de sua vida física, e submetido ao incessante tormento das sensações dolorosas do corpo nos seus últimos momentos, saturado que se acha o seu perispírito (o corpo espiritual, ou sutil, réplica do físico, e veículo fiel das sensações do corpo mais grosseiro, e das impressões sensoriais experimentadas, à alma) do fluido vital necessário ao período de vida física, programado antecipadamente pelos técnicos que a cada um de nós auxiliam em cada retorno aos estágios de reencarnação; principalmente se se manteve este indivíduo destituído de qualquer noção de fundo espiritual, que, instintivamente, o induziria, flagelado pela dor, a solicitar o socorro do Mais Alto, de Deus, e dos amigos assistentes da invisibilidade que, se nestes momentos prescindem de chamado para ajudar – o que fazem de pronto em função de amor – não podem efetivar auxílio sem que o auxiliado se conscientize, por ele mesmo, do próprio estado precário, e da sua necessidade de ajuda.
O suicida, portanto, é antes de tudo doente da alma, em virtude do que merecedor de nosso melhor carinho, pensamentos e orações. É indivíduo vitimado por um estado desvirtuado de ser e de sentir a Vida na sua maior extensão. Iludido, sobretudo, pelo maior dos enganos: o de que aqui, neste microscópico mundo perdido no Cosmos, se encerra a nossa expressão última de existir, e toda a sua finalidade, com os seus enredos acanhados e incertos como as nuvens nos céus. Ignora, assim, o sem-fim do nosso percurso, e as alternativas inimagináveis que nos aguardam se, simplesmente, nos entregarmos ao saudável exercício de expandir nossa visão interior para além dos objetivos, valores, e conceitos puramente materiais, aprendendo que o corpo físico é, antes de tudo, veículo, instrumento – a nossa transitória expressão densa num orbe que nos recebe como hóspedes durante o nosso percurso evolutivo dentro da trajetória maior da eternidade que a todos aguarda, em cenários e contextos de vida inimaginavelmente melhores. 
A reencarnação é uma realidade que não se
prende a crença ou a descrença
 
Vivemos em tempos em que não se admitem mais meias palavras na elucidação de coisas importantes. Assim, no que aqui nos interessa mais de perto, e para atingir o ponto pretendido, preciso é que se diga: uma das maiores desgraças ocorridas para a saudável evolução mental e espiritual no ocidente foi a retirada arbitrária, pelo Concílio de Constantinopla em 553 d. C, das menções à realidade da reencarnação nos evangelhos.
Vejam bem que enuncio aqui, e de caso muito bem pensado, realidade! Porque já é ultrapassado o prazo para o entendimento de que a verdade da reencarnação não se prende a crença ou a descrença. Existe, tanto quanto o sol sobre as nossas cabeças; e se fará presente na trajetória de cada um de nós tantas quantas forem as vezes necessárias ao nosso entendimento de que o aprendizado e o crescimento são as metas da trajetória – não nenhuma suposta chegada estacionária nalgum paraíso entediante e mergulhado num eterno e inútil tocar de harpas; e nem tampouco nalgum inferno sádico e incoerente para com os propósitos grandiosos do Criador que a tudo gerou com equilíbrio e com finalidade sábia, que não é, jamais, a condenação de qualquer parte de Si mesmo a um castigo absurdo, perene, e despojado de qualquer objetivo maior para a contabilidade cósmica num Universo que a tudo aproveita e exalta na sua função, para glória maior da Vida!
O suicídio enreda seres que já nascem cerceados nesta armadilha: num mundo que, no decorrer dos últimos séculos, por imposição do poder religioso, se habituou a conceber o funcionamento da existência humana como uma viagem que começa no berço e acaba inapelavelmente no túmulo – tendo como único e diáfano reconforto a esperança de que, talvez, se for muito – mas muito! – bonzinho, livre de pecados, irá após a morte para o tal do céu!


terça-feira, 18 de setembro de 2012

A IMPORTÂNCIA DO OUVIDO


Nas vésperas da reencarnação, sou estimulado a falar de minha falência espiritual.
Instrutores e guardiães recomendam-me destacar A IMPORTÂNCIA DO OUVIDO.


Pedreiro modesto, órfão de mãe desde a meninice, casei por amor, embora contra os planos de meus irmãos, que escolheram noiva diferente para mim. Meu pai ficou ao meu lado apoiando na escolha. Durante seis anos a hostilidade familiar contra minha mulher não diminuiu. Alice, a companheira inexperiente, proporcionou-me 2 filhos queridos, quando se engravidou pela terceira vez. Nessa época, o veneno já me corroia a confiança. Diziam que um amigo nosso de infância seria o responsável pelos supostos deslizes da minha esposa. Os interessados em nossa desunião provocavam falsos testemunhos, bilhetes anônimos e difamações acabaram por arruinar-me.
Discutimos.
Acusei-a, defendeu-se.

Chorou, zombei . . .
E, para fiscalizar-lhe a conduta, transferi-me para a casa de meu pai, ameaçando tomar-lhe as crianças, através do desquite. Para isso, porém, queria provas, tinha fome de confirmações do inexistente.
Meu pai surgia conciliador dizendo:
- Meu filho, paternidade é compromisso perante Deus. Você não tem direito de proceder assim. Onde está a caridade para com a esposa ingênua? Mesmo que ela errasse, constituiria isso motivo para uma sentença de abandono implacável? Há comportamentos ditados por desequilíbrios espirituais que não conhecemos na origem. Pense nas tragédias da obsessão que campeiam no mundo. E os pequeninos? Terão eles a culpa de nossas perturbações? Recorramos a prece, meu filho! A prece nos clareará o caminho.
Eu ficava em silencio, ao ouvir suas advertências, mas, no íntimo, articulava minhas respostas íntimas: "orarei pela boca do revolver", "pobre pai", "bobo de velho com 66 anos", "cabeça tonta", "caduco", "fanático".
E, noite a noite, vigiava, de longe, os movimentos de Alice.
Duas semanas decorreram normais, quando vi o vulto de um homem que saía de nossa casa. Achei que fosse o rival. Guardei segredo e prossegui na tocaia. Mais 4 dias e o mesmo homem chegou de carro, despediu-se do motorista e entrou. Puxei o relógio. 11h:15m, noite quente.
Prevenido, acerquei-me da moradia, que se localizava em subúrbio. Os dois pareciam íntimos à distância, notei que se acomodavam num banco de pedra do pátio lateral. Conversavam sugerindo carinho mútuo. Desvairado, consultei o portão de entrada, verificando-o semi-aberto. Acesso fácil. Com a sagacidade de um felino, avancei, descarregando a arma nos dois. Ouvi gritos, mas ocultei-me na vizinhança, para fugir em seguida, senti-me vingado. Tentando refrigerar a cabeça, procurei descansar algumas horas em praias deserta. Joguei o revólver no esgoto e voltei a casa para saber, amedrontado, que eu não apenas assassinei minha esposa, mas também meu abnegado pai que a socorria. Não acreditei. Corri ao necrotério e, ao reconhecê-los, tornei ao lar, atormentado pelo remorso, e enforquei-me. Exilado por minha própria crueldade, em vales tenebrosos, nunca mais vi os que amo.
Vocês entendem o que sofro? Quantos anos passaram sobre os meus crimes? Não sei. Os que choram sem o controle do tempo não sabem contar as horas. Misericórdia, meu Deus! Dai-me a reencarnação, os obstáculos da Terra, a luta, a provação e o esquecimento, mas ainda que eu padeça humilhação e surdez, durante séculos, permiti Senhor, que eu aprenda a escutar! . . .



Pelo Espírito: João; do livro Luz no Lar; psicografia de Chico Xavier.

sexta-feira, 14 de setembro de 2012


A FAMÍLIA É PROGRAMADA NO ALÉM? - J. Raul Teixeira 



Embora encontremos no Movimento Espírita o pensamento do senso comum estabelecendo que cada fulano vem à Terra para encontrar uma certa “beltrana”, ambos devidamente definidos um para o outro, desde o além, as coisas não se passam exatamente assim.

Somente aos espíritos dotados de expressivos valores morais, é permitido a escolha, a seleção, o condicionamento do núcleo familiar com quem irá casar-se ou viver afetivamente na Terra. A livre escolha é quando o indivíduo deseja realizar certos ministérios que lhe exigem entrega total.

 Geralmente são afetos do passado. Neste caso chamamos de prova.

Faltando esses valores nos espíritos de pouca evolução (a maioria), a escolha é estabelecida pelos Espíritos Mentores que sabem o que será melhor para o progresso e a libertação gradual dos seus tutelados. Trata-se de expiação. Muitas vezes, quando encarnados, desviam-se da pessoa ou do tipo de pessoa que lhe foram planejadas. 

Exemplo: casam-se com outras pessoas, abortam, diminuem o número de filhos que se comprometeram ter, etc.
Quando os desencarnados, na erraticidade, estão pensando no próximo retorno aos campos terrenos (reencarnação), os Mentores Espirituais costumam se reunir para tratar da questão. Essas reuniões, diálogos e entendimentos só acontecem quando se trata de Espíritos com maturidade suficiente para compreender o que seja melhor para si, na caminhada evolutiva.

Os mentores colocam os prós e contras, ou seja, as conquistas, débitos, ações complicadoras, e virtudes trazidos das encarnações anteriores. Avaliam os modos de vida que lhes propiciarão liberação rápida ou lenta, verificam suas condições para suportar uma ou outra vereda provacional-expiatória, e estabelecem, desde então, com que “tipo” de indivíduo e não com que indivíduo deverão se encontrar. 

 É desses entendimentos e ajustes que cada ser, que se prepara para o grande retorno ao cenário da matéria densa e que características deverão ter suas relações conjugais, filiais, pater-maternais, ou seja, que caráter deverá ter a esposa ou o esposo, o pai ou a mãe, os filhos, propiciando-lhe oportunidade de expiar o que deve alcançar as virtudes das quais carece, ajustando-se ao contexto das leis do Criador.

Por exemplo: Há espíritos que renascerão em corpos masculinos e necessitarão de esposas exigentes, disciplinadoras, sem grandes demonstrações emotivas, em razão da equipagem que trazem do pretérito. 

Outros deverão encontrar esposas afetuosas, emotivas, românticas e liberais. 

Outros mais precisarão de companheiras nas quais se misturem essas várias nuances do caráter; há os que reencarnarão com corpos femininos e que, por sua vez, carecerão de esposos, de companheiros portadores de tipos de caráter como os apontados acima. 

Uns serão esposos rígidos, policiadores, dominadores, afetivamente frios, outros serão sensíveis, amigos, parceiros, atenciosos ou que experimentem no modo de ser combinações dessas características.
Dadas as necessidades, os espíritos são preparados para renascer em novo corpo físico em determinada família cujas características melhor atendam ao reencarnante, seja em termos biológicos, sociais, econômicos ou morais.
A família terrena tem, então, grande importância no processo da reencarnação de cada espírito. Nela este encontrará o que lhe seja necessário para podar os males do caráter, quanto para conquistar as virtudes que lhe faltam.
Caso não consiga perceber essa função divina do grupo familiar, o reencarnado poderá complicar-se ou complicar-se mais, fazendo-se devedor desse benefício que lhe foi concedida pela vontade amorosa de Deus, da qual não fez bom uso.

Postado por GRUPO DE ESTUDO ALLAN KARDEC 

terça-feira, 11 de setembro de 2012


Uma receita para afastar
os maus Espíritos

Toda vez que alguém envolvido em um processo obsessivo busca auxílio numa Casa Espírita, as pessoas, sobretudo seus familiares, imaginam que o resultado positivo se dará rapidamente, o que nem sempre ocorre.

Será que os bons Espíritos, os protetores espirituais chamados para o socorro, são mais fracos do que o Espírito causador da obsessão?

Não!

Não é isso que ocorre. 

Não é o bom Espírito que é mais fraco: é a pessoa que não é bastante forte para sacudir o manto lançado sobre ela, para se livrar do constrangimento dos braços que a enlaçam e nos quais, é preciso que se diga, algumas vezes se compraz. 

Ora, se a pessoa prefere comprazer-se no envolvimento que a constrange, nada ou pouco poderá fazer o amigo espiritual.

Imaginemos, porém, que a pessoa tenha realmente o desejo de se desembaraçar desse jugo e mesmo assim nada consegue. 

Qual a explicação?

Examinando esse assunto, Kardec explica que nem sempre o desejo, em casos assim, basta, porque a tarefa da desobsessão é uma espécie de luta contra um adversário.

 Se duas pessoas lutam corpo a corpo, aquela que tem músculos mais fortes derruba a outra.

Nos processos obsessivos, é necessário lutar não corpo a corpo, mas Espírito a Espírito, e é ainda aqui o mais forte que domina, sendo que nesse caso a força está na autoridade moral que se pode tomar sobre o Espírito.

Esforçar-se para ser bom, tornar-se melhor se já é bom, purificar-se de suas imperfeições, em uma palavra: elevar-se moralmente o mais possível, esse é o meio para se adquirir o poder de dominar os Espíritos inferiores e, desse modo, afastá-los.

Mas alguns ainda perguntam – não podem os Espíritos protetores ordenar ao mau Espírito que se afaste?

Sem dúvida, podem e o fazem algumas vezes; contudo, permitindo a luta, deixam também à vítima do processo o mérito da vitória. 

Se deixam se debaterem pessoas merecedoras sob certos aspectos, é para provar a sua perseverança e fazê-las adquirir mais força no bem, o que será, para elas, uma espécie de ginástica moral.

Muitos, sem dúvida, prefeririam uma receita prática para a expulsão dos maus Espíritos. 
Quem sabe? algumas frases de efeito, alguns sinais cabalísticos, o que seria mais cômodo do que corrigir seus defeitos. 

Não se conhece, porém, nenhum meio eficaz para vencer um inimigo senão sendo moralmente mais forte do que ele.

sexta-feira, 7 de setembro de 2012



Segundo o IBGE, continua a cair no país o número de católicos
Os dados constam do novo mapa das religiões no Brasil elaborado pela Fundação Getúlio Vargas com base na pesquisa de orçamentos familiares do IBGE

O Novo Mapa das Religiões elaborado pela Fundação Getúlio Vargas, divulgado no ano passado, com base na última pesquisa de orçamentos familiares feita pelo IBGE, aponta uma nova redução do número de católicos em nosso país.
Em 2003, 74% dos brasileiros se declaravam católicos. Em 2009, esse percentual caiu para 68,4%. A redução foi maior entre jovens e mulheres.
No tocante aos protestantes e evangélicos, observou-se uma tendência diferente: seu número subiu de 17,9% para 20,2%, tendo aumentado também o número de espíritas e das pessoas que dizem não ter religião.
O Mapa das Religiões mostra, de modo inequívoco, que o Brasil continua sendo um país de diversidade religiosa e isso fica bem caracterizado nas capitais brasileiras.
O Rio de Janeiro tem a maior proporção de espíritas. São Paulo concentra mais seguidores de religiões orientais. Porto Alegre tem a maior proporção de praticantes de religiões afro-brasileiras. Vitória é a cidade mais evangélica entre as capitais. Teresina tem a maior proporção de católicos e é em Boa Vista que há mais pessoas sem religião.
Esses dados devem, porém, alterar-se nos próximos anos. “Uma das coisas que mudaram mais, nos últimos 20 anos, eu diria que é a composição religiosa da população. Ela vinha mudando a uma determinada taxa, agora ela está mudando dez vezes mais rápido que nos cem anos antes”, disse Marcelo Neri, coordenador do Centro de Políticas Sociais da FGV.
De acordo com a Fundação Getúlio Vargas, o número de católicos no país caiu ao seu menor nível de todos os tempos, como mostra o quadro abaixo:
 
Conforme o leitor pode ver, em 1872, primeiro ano em que levantamento semelhante foi feito em nosso país, o percentual de católicos era 99,72% da população brasileira, índice que vem diminuindo de forma acentuada ao longo dos anos, como assinala o quadro abaixo:
Evolução dos adeptos do catolicismo no Brasil, segundo estudo da FGV
1872
99,72%
1980
88,96%
1991
83,34%
2000
73,89%
2003
73,79%
2009
68,43%
Um dos motivos apontados pelos especialistas é o crescimento do número de evangélicos, que já chegaram a um quinto da população do país, ou seja, 20,3% dos brasileiros.
Até o ano 2000, a redução dos católicos no País era atribuída diretamente ao crescimento dos grupos evangélicos no Brasil, mas estes não registraram um crescimento de fiéis nos últimos seis anos tão elevado como o que registravam anteriormente. De acordo com o estudo, a porcentagem de brasileiros que diz ser fiel às igrejas evangélicas tradicionais e aos novos grupos evangélicos subiu de 17,88% em 2003 até 20,23% em 2009.
O número de seguidores do Espiritismo também apresentou alta – de 1,5% em 2003 para 1,65% em 2009 –, assim como os praticantes das religiões afro-brasileiras (de 0,23% para 0,35%), conforme mostra o quadro abaixo:

Sem religião
Católicos
Evangélica pentecostal
Outras evangélicas
Espíritas
Afro 
brasileira
Orientais ou asiáticas
2009
6,72%
68,43%
12,76%
7,47%
1,65%
0,35%
0,31%
2003
5,13%
73,79%
12,49%
5,39%
1,5%
0,23%
0,3%
Apenas 5% das mulheres brasileiras não têm religião, enquanto esse percentual sobe para 8,52% na coluna masculina. “Enquanto os homens abandonaram as crenças, as mulheres trocaram de crença, preservando mais que eles a religiosidade”, relata o estudo. A ética católica, segundo a análise, “estaria sendo trocada por outras mais em linha com a emancipação feminina em curso” acompanhada por uma revolução dos costumes. As alterações no estilo de vida feminino nos últimos 30 anos não encontraram eco na doutrina católica, “menos afeita a mudanças”.
Quando os olhares se voltam para o critério econômico, a classe E mostra-se como a menos religiosa de todas – 7,72%. O catolicismo é a religião mais presente nos dois extremos – 72,76% na classe E, e 69,07% nas classes AB. Os pentecostais têm maior abrangência nos níveis inferiores da distribuição de renda: 15,34% na classe D, 2,4 vezes maior do que nas classes AB – 6,29%. Os evangélicos tradicionais e históricos concentram-se mais nas classes AB (8,35%) e C (8,72%).
O Novo Mapa das Religiões levanta uma tese: enquanto o protestantismo tradicional liberou o cidadão comum da culpa da acumulação do capital privada, as religiões neopentecostais liberaram a acumulação privada de capital através da igreja. Elas estariam ocupando, no período de baixo crescimento econômico no país – anos 80 e 90 – o lugar do Estado na cobrança de impostos (dízimo e outras contribuições) e na oferta de serviços e redes de proteção social.
O Piauí é o Estado da Federação com o maior contingente de católicos (87,93%) e Roraima é o que tem o maior número dos que se dizem sem religião (19,39%). O Estado com a maior concentração de pentecostais é o Acre (24,18%), enquanto o Espírito Santo (15,09%) é o Estado que reúne maior número de evangélicos tradicionais e históricos.
No tocante aos seguidores do Espiritismo, o Estado do Rio de Janeiro é o que apresenta o maior percentual de adeptos relativamente à sua população: 3,37%, mais que o dobro do percentual de espíritas em termos nacionais.
Segundo os dados divulgados pela Fundação Getúlio Vargas, depois do Rio de Janeiro, o Estado com maior número de espíritas é Rio Grande do Sul – 2,84% da população do Estado, vindo a seguir o Distrito Federal (2,75%), Goiás (2,72%), São Paulo (2,30%) e Minas Gerais (2,21%).
O link que permite o acesso à pesquisa "Mapa das Religiões", realizada pela Fundação Getúlio Vargas (FGV) é este: http://www.fgv.br/cps/religiao/

terça-feira, 4 de setembro de 2012



Alexandre Fontes da Fonseca
Estaria o Espiritismo ultrapassado?... Ou 
muito na frente?
 

Nos últimos anos, o número de espíritas cresceu a uma taxa pouco acima da do crescimento da população brasileira, conforme apontam pesquisas recentes do IBGE [1,2]. Essa notícia, sem dúvida, demonstra o bom andamento das atividades de divulgação do Espiritismo, e estimula a continuidade e aprimoramento das mesmas.
Certamente, os avanços da tecnologia de armazenamento e divulgação de informação contribuíram para esse crescimento, o que nos mostra a responsabilidade que temos em nos instruirmos conforme orientação do Espírito de Verdade (item V do Cap. VI de O Evangelho segundo o Espiritismo[3]).
Entretanto, o mesmo progresso que facilita o acesso às obras e aos estudos espíritas também tem permitido o acesso a informações e estudos de teor moral e intelectual questionáveis e inseguros. No caso do movimento espírita, a facilidade de divulgar ideias e doutrinas espiritualistas próprias, e a de acessá-las, têm levado algumas pessoas a questionar o Espiritismo, propondo ao movimento espírita a adoção de práticas espiritualistas diferentes e alternativas em nome da modernidade. Em alguns casos, o próprio conhecimento científico tem sido invocado como razão suficiente para propor desde inovações na prática mediúnica até alterações na própria Doutrina Espírita, sob alegações de que seus conceitos estariam ultrapassados.
Alguns dizem que por causa do comentário de Kardec  (item 55 de A Gênese[4]) de que “Caminhando de par com o progresso, o Espiritismo jamais será ultrapassado, porque, se novas descobertas lhe demonstrassem estar em erro acerca de um ponto qualquer, ele se modificaria nesse ponto. Se uma verdade nova se revelar, ele a aceitará”, tais novidades deveriam ser aceitas sem questionamento pois que afinal são “verdades novas que se revelam”. Porém, o que está de fato acontecendo é que muitos companheiros espíritas, seduzidos por um discurso de atualidade de doutrinas e práticas alternativas e, principalmente, por não terem conhecimento profundo de teorias modernas da Ciência para avaliar essas mesmas doutrinas, estão cedendo ao apelo de se questionar a validade do Espiritismo na descrição da realidade espiritual.  
O receio que decorre da ignorância sobre o que é Ciência 
Como analisado por nós anteriormente [5], “o receio de a Ciência encontrar erros no Espiritismo se reflete na preocupação exagerada em vê-lo confirmado por ela ou relacionado às novidades científicas como, por exemplo, na ênfase dada a teorias e práticas espiritualistas baseadas na Física Quântica”. Esse receio, que decorre da ignorância sobre o que é Ciência e como ela se desenvolve, abriu uma brecha no movimento espírita: a possibilidade de se introduzir novas práticas usando termos e conceitos desconhecidos dos espíritas. Como consequência, erros graves podem ocorrer como no exemplo da proposta de atualização da resposta dada pelos Espíritos à questão número 34 de O Livro dos Espíritos [6] que, segundo alguns, estaria errada do ponto de vista da Física e da Química. Porém, o erro desta crítica estava na falta de conhecimento da Física que permite justamente demonstrar que a resposta dos Espíritos à questão 34 do L.E. está completamente correta  (ver artigo da ref. [7]). (*)
Se “Fé inabalável só o é a que pode encarar de frente a razão, em todas as épocas da Humanidade” (Kardec, item 7 do Cap. XIX de O Evangelho segundo o Espiritismo [3]), como encarar críticas ao Espiritismo e propostas espiritualistas que usam conceitos da Ciência se poucos têm condições de avaliá-los? Como encarar a razão dos que dizem que o Espiritismo está ultrapassado? Essas são questões importantes e é oportuno observar que tanto no passado, quanto no presente, a espiritualidade tem demonstrado preocupação com alterações ou inovações indevidas no Espiritismo:
A Doutrina Espírita possui os seus aspectos essenciais em configuração tríplice. Que ninguém seja cerceado em seus anseios de construção e produção. Quem se afeiçoe à ciência que a cultive em sua dignidade, quem se devote à filosofia que lhe engrandeça os postulados e quem se consagre à religião que lhe divinize as aspirações, mas que a base kardequiana permaneça em tudo e todos, para que não venhamos a perder o equilíbrio sobre os alicerces em que se nos levanta a organização.” (“Unificação”, mensagem de Bezerra de Menezes recebida por D. P. Franco em 20-04-1963 [8]. Grifos em negrito nossos). 
Pode o Espiritismo ser considerado uma revelação? 
A programação que estabelecestes para este quinquênio é bem significativa, porque verteu do Alto, onde se encontrava elaborada, e vós vestistes-a com as considerações hábeis e aplicáveis a esta atualidade. Este é o grande momento, filhos da alma. Não tergiverseis, deixando-vos seduzir pelo canto das sereias da ilusão. Fidelidade à doutrina é o que se nos impõe, celebrando os cento e cinquenta anos da obra básica da Codificação Espírita. Não permitais que adições esdrúxulas sejam colocadas em forma de apêndices que desviem os menos esclarecidos dos objetivos essenciais da doutrina. (...) Sede fiéis, permanecendo profundamente vinculados ao espírito do Espiritismo como o recebestes dos imortais através do preclaro Codificador.” (“O Meio-Dia da Nova Era”, mensagem de Bezerra de Menezes recebida por D. P. Franco em 12-04-2007 [9]. Grifos em negrito nossos). 
Esses tempos atuais chamam-nos à fidelidade aos projetos do Espírito de Verdade, para que estejamos atentos a fim de que não abandonemos o trabalho genuinamente espiritista, passando a ocupar valioso tempo com palavrórios e disputas, situações e questões que, declaradamente, nada tenham a ver com a nossa Causa, por não serem da alçada do Espiritismo.” (“Definição e trabalho em tempos difíceis”, mensagem de Camilo recebida por Raul Teixeira em 11-11-2005 [10]. Grifos em negrito nossos).
Conforta-nos saber que Kardec não se esqueceu de analisar a importante questão da validade da Doutrina Espírita. No item 1 do Cap. 1 de A Gênese[4], Kardec lista questões fundamentais para o fortalecimento da fé espírita: “Pode o Espiritismo ser considerado uma revelação?”, “Neste caso, qual o seu caráter?”, “Em que se funda sua autenticidade?”, “A quem e de que maneira foi ela feita?”, e outras. Essas questões demonstram o cuidado de Kardec em munir o espírita de razões sólidas para assegurar a integridade do Espiritismo e orientar a condução do seu aspecto progressivo. Se não soubermos qual o caráter do Espiritismo, seus valores, suas bases, e os critérios utilizados na codificação, dificilmente saberemos nos posicionar perante as novidades que se apresentam na atualidade.  
O Espiritismo é a única doutrina que possui duplo caráter
O leitor encontrará em A Gênese [4] as respostas de Kardec a essas questões. Aqui, desejamos apenas destacar um detalhe muito importante que nos permite responder à pergunta título deste artigo: “Estaria o Espiritismo ultrapassado? ... Ou muito na frente?” Esse detalhe irá certamente contribuir para a nossa segurança em preservar a Doutrina Espírita conforme nos pedem Bezerra e Camilo. Mostraremos ao leitor que o Espiritismo, na verdade, como revelação, está à frente dos avanços de nosso tempo e não ultrapassado, como alguns acreditam.
Este detalhe, como já ressaltado em artigos anteriores [11,12], consiste da constatação de que o Espiritismo é a única doutrina ou teoria do conhecimento humano que possui duplo caráter de uma revelação! O “duplo” significa “dois tipos” possíveis: o caráter divino e o caráter científico de uma revelação. A codificação do Espiritismo ocorreu através de ambos, e o leitor é remetido ao item 13 de A Gênese [4] para verificar a explicação de Kardec. 
O caráter divino da revelação espírita decorre do fato de os conceitos fundamentais do Espiritismo serem oriundos da revelação dos Espíritos. O caráter científico decorre do fato de que, como meio de elaboração (Kardec, item 14 de [4]), “o Espiritismo procede exatamente da mesma forma que as ciências positivas, aplicando o método experimental”.
Como, em pleno século 21, não há doutrina ou teoria sequer que tenha o duplo caráter de uma revelação, podemos concluir que o Espiritismo é uma doutrina inédita e ao mesmo tempo única na história da humanidade! As teorias científicas e filosóficas possuem apenas o caráter científico de uma revelação, enquanto que todas as obras de natureza mediúnica possuem apenas o caráter divino de uma revelação.
Isso também nos leva a concluir com segurança que por mais que se reconheça o valor moral, literário e científico das obras psicografadas por médiuns exemplares como Francisco C. Xavier, Divaldo P. Franco, José Raul Teixeira, e muitos outros, essas obras não podem formar uma doutrina com o mesmo valor e caráter de revelação que o Espiritismo possui. Isso porque são elas apenas revelações de caráter divino.  
Como o progresso do Espiritismo deverá processar-se? 
O fato de algumas obras possuírem conteúdos científicos não é razão para considerarmo-las como tendo caráter científico de uma revelação, pois que esse caráter decorre da metodologia de pesquisa e descobrimento das novas ideias e não do tipo de novas ideias.
Assim, o Espiritismo, mesmo tendo sido codificado há século e meio atrás, demonstra estar, na verdade, ainda na frente de todas essas doutrinas, teorias e propostas espiritualistas, tanto de encarnados quanto desencarnados. Mesmo as doutrinas que se baseiam em conceitos considerados modernos não estão à frente do Espiritismo, por lhes faltarem desenvolvimento em um dos dois tipos de caráter. E, é importante dizer, essa característica única do Espiritismo não significa que ele não irá progredir. Porém, o progresso do Espiritismo deverá ocorrer respeitando-se o duplo caráter de uma revelação, isto é, deverá ocorrer através do estudo e da pesquisa sérias, aliado ao apoio da espiritualidade através do consenso universal. Portanto, não será meramente aceitando conceitos que não sabemos avaliar, mas queparecem modernos, que devemos incentivar alterações ou inserções no Espiritismo; não será nem com mensagens que aparentam elevação, nem com comparações superficiais com conceitos da Ciência, que novas práticas espiritualistas devem ser aceitas no movimento espírita. Quando não tivermos conhecimento bastante para avaliar uma novidade, seja ela proposta por encarnado ou por desencarnado, devemos seguir a recomendação de Erasto (item 230 de O Livro dos Médiuns [13]): “É melhor repelir dez verdades do que admitir uma única falsidade, uma só teoria errônea.”
Percebemos, agora, o alcance e a sabedoria dessas palavras na defesa do movimento espírita e do Espiritismo. Não foi à toa que o Espírito de Verdade nos orientou a estudar com mais profundidade o Espiritismo.  

Nota: 
(*)  A questão 34 d´O Livro dos Espíritos diz o seguinte:
34. As moléculas têm forma determinada? “Certamente, as moléculas têm uma forma, porém não sois capazes de apreciá-la.”
a) — Essa forma é constante ou variável? “Constante a das moléculas elementares primitivas; variável a das moléculas secundárias, que mais não são do que aglomerações das primeiras. Porque, o que chamais molécula longe ainda está da molécula elementar.”

Referências: 
[1] http://oglobo.globo.com/infograficos/censo-religiao/ acessado em 5 de Julho de 2012.
[2] http://estadaodados.com/html/religiao/ acessado em 5 de Julho de 2012.
[3] A. Kardec, O Evangelho Segundo o Espiritismo, Editora FEB, 112ª Edição, Rio de Janeiro (1996).
[4] A. Kardec, A Gênese, FEB, 34ª Edição, Rio de Janeiro, (1991).
[5] A. F. da Fonseca, “O “Medo” da Ciência e a Atualização do Espiritismo: Parte I”, Reformador Julho, p. 18 (2011).
[6] A. Kardec, O Livro dos Espíritos, Ed. FEB, 1ª Edição, Rio de Janeiro (2006).
[7] A. F. da Fonseca, “A Física Quântica e as questões 34 e 34-a de O Livro dos Espíritos”, Reformador Dezembro, p. 14 (2008).
[8] D. P. Franco, pelo Espírito Bezerra de Menezes, “Unificação”, mensagem recebida em 20-04-1963 em Uberaba e publicada em Reformador Dezembro (1975).
[9] D. P. Franco, pelo Espírito Bezerra de Menezes, “O Meio-Dia da Nova Era”, mensagem recebida em 12-04-2007 em Brasília e publicada em Reformador Junho (2007).
[10] J. R. Teixeira, pelo Espírito Camilo, “Definição e trabalho em tempos difíceis”, mensagem recebida em 11-11-2005 em Brasília e publicada em Reformador Janeiro (2006).
[11] A. F. da Fonseca, “A Revelação Espírita”, Reformador Abril, p. 36 (2011).
[12] A. F. da Fonseca, “Espiritismo: único conhecimento humano que tem o duplo caráter de uma Revelação!” O Consolador 209 (2011). Link para o artigo: http://www.oconsolador.com.br/ano5/209/alexandre_fonseca.html acessado em 1º de Julho de 2012.
[13] A. Kardec, O Livro dos Médiuns, Ed. FEB, 1ª Edição, Rio de Janeiro (2008).

Alexandre Fontes da Fonseca é professor de Física na Universidade Estadual Paulista "Júlio de Mesquita Filho", em Bauru-SP.