kardec - o educador

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segunda-feira, 31 de março de 2014



KARDEC, A BIOGRAFIA – UM LIVRO BOM DE SE LER

Não direi que o livro Kardec: a biografia é uma grata surpresa, porque quem escreveu a melhor biografia de Chico Xavier, até hoje, prometia escrever também a melhor do mestre de Chico e de milhões de espíritas brasileiros:

 Allan Kardec.
Por que considero ambas excelentes biografias?

 Porque são biografias mesmo e não hagiografias. (Para quem não sabe, hagiografia é história de santo, escrita dentro dos cânones da Igreja Católica).

 Marcel Souto Maior conta a história de um ser humano. De um grande ser humano, mas um ser humano. Um homem de bem, que é o que O Evangelho segundo o Espiritismo propõe como padrão ético. E conta muito bem contado.

Seu estilo é leve, sem cair na banalidade É espirituoso e às vezes oportunamente irreverente, justo para não assumir um tom laudatório demais, o que acabaria com a sua credibilidade de biógrafo e jornalista investigativo. É um texto saboroso, ágil e que nos dá vontade de ler sem parar.

Souto Maior soube tratar de um assunto delicado, sem ferir nenhum partido; de um assunto sério, sem cair numa doutrinação massacrante e antipática.

Acima de tudo, porém, é fiel aos fatos. E sendo fiel aos fatos, a grandeza do personagem se destaca naturalmente, sem a mínima necessidade de usar uma batelada de elogios melosos.
Aliás, o que se sobressai na biografia escrita por Souto Maior é o Kardec da Revista Espírita. 

Quem está familiarizado com os 12 volumes da Revista, conhece melhor a personalidade de Kardec, seus embates, seu contexto, seus diálogos e discussões com adversários e aliados, com admiradores e detratores.

 O autor soube compor não só a partir da Revista, mas de outros documentos, um mosaico bem montado de Kardec, seu trabalho e sua época, que nos permite nos sentirmos lá, na França do século XIX.

Talvez para alguns, que prefeririam uma hagiografia, o fato de Kardec na biografia se irritar, se cansar, se alegrar e usar de uma fina ironia (e usava mesmo com todo o requinte do esprit francês) pode parecer algo humano demais. 

Mas grandes homens também se irritam e se cansam. Com essa constatação óbvia, em absolutamente nada sai arranhada a personalidade de Kardec e o que ele propôs como Espiritismo.

É claro que não se trata de uma obra filosófica e por isso não discute a fundo alguns pontos que poderiam ser polêmicos e assim não é um livro que sai dos cânones do Espiritismo brasileiro atual. 

Mas a postura crítica, racional e vigilante que Kardec tinha em relação à mediunidade é muito bem retratada e, mesmo sem querer, serve de alerta para esse movimento, que perde muitas vezes qualquer critério de análise do que supostamente vem do Além.

Quando me refiro aos cânones do Espiritismo brasileiro atual, estou falando de coisas que já estão assentadas entre nós e não me parecem que sejam tão fiéis a Kardec. 

Por exemplo, o termo “codificador”, que eu mesma usava, criada que fui nesse movimento, mas que tenho criticado ultimamente, pois ele não aparece em nenhuma obra da Kardec. 

Aparentemente, trata-se de algo criado aqui no Brasil e que ressalta o caráter do mestre como mero organizador de uma revelação pronta ou mero secretário dos Espíritos.

 Tenho pontuado que, apesar de sua modéstia, o próprio Kardec reconhecia em si mesmo um papel mais ativo e criativo nessa relação com os Espíritos.

 Diz ele em Obras Póstumas:
“Conduzi-me, pois, com os Espíritos, como houvera feito com os homens. Para mim, eles foram, do menor ao maior, meios de me informar e nãoreveladores predestinados.”

E na Gênese:

“O homem concorre para a revelação com o seu raciocínio e o seu critério; desde que os Espíritos se limitam a pô-lo no caminho das deduções que ele pode tirar da observação dos fatos.

 Ora, as manifestações (…) são fatos que o homem estuda para lhes deduzir a lei, auxiliado nesse trabalho por Espíritos de todas as categorias, que, de tal modo, são mais colaboradores seus do quereveladores, no sentido usual do termo.”

Ou seja, como estudei em minha tese de doutorado na USP, que virou depois o livro Pedagogia Espírita, um projeto brasileiro e suas raízes, Kardec criou um novo paradigma para conhecermos o mundo, que inclui uma dimensão espiritual.

 E esse método de estudar os fenômenos que evidenciam a imortalidade de alma é algo criado por ele e não pelos Espíritos.

 O livro de Souto Maior não desmente isso, aliás chega perto de demonstrar através de sua narrativa essa proposição que fiz. 

Mas não é seu objetivo, e nem poderia ser, discutir altas questões epistemológicas.

Um único reparo histórico que tenho a fazer no livro, um descuido talvez:

 Victor Hugo, quando se interessou pelas mesas girantes e manteve diálogos com os Espíritos, inclusive o de sua filha morta num afogamento, não estava em Paris, como afirma Marcel.

 O grande escritor francês estava exilado na ilha de Jersey, por conta de sua oposição ao governo de Napoleão III, que ele chamava de Napoléon, le petit (Napoleão, o pequeno).

Gostei particularmente dos dois últimos capítulos do livro, que estão muito bem articulados. 

O penúltimo trata do processo dos espíritas (aliás, num erro de digitação ou num engano de tradução aparece como “processo dos espíritos”), em que o juiz Millet destrata Amélie, já idosa, e lança de uma ironia agressiva e injusta contra a personalidade de Kardec. 

E Souto Maior nada responde. 

Mas insere no último capítulo a resposta final: 

um texto do mestre, que considero um dos mais bonitos, porque revela algo de sua intimidade e que só apareceu em Obras Póstumas, em que ele descreve a si mesmo, fazendo um balanço de sua vida de homem de bem.

 Essa é a melhor resposta para o Juiz furioso e para todos aqueles que ainda denigrem Kardec. 

Um texto em que o mestre se analisa com toda a simplicidade como um pessoa interessada em fazer o bem e promover a felicidade alheia.

 E foi isso o que fez com o Espiritismo.

Dora Incontri - pesquizadora


sábado, 29 de março de 2014

                            Que fizemos do filho confiado 
                            à nossa guarda? 

Segundo Emmanuel, a juventude pode ser comparada a esperançosa saída de um barco para viagem importante.

 “A infância foi a preparação, a velhice será a chegada ao porto”, aditou o conhecido instrutor espiritual, que foi, como sabemos, o coordenador da obra mediúnica de Chico Xavier.

Muito se tem escrito nesta revista sobre o papel dos pais e a importância da tarefa que lhes cabe no programa reencarnatório daqueles que Deus confiou aos seus cuidados, sobre a qual lemos na principal obra espírita a seguinte questão:

582. Pode-se considerar como missão a paternidade?

“É, sem contestação possível, uma verdadeira missão.

 É ao mesmo tempo grandíssimo dever e que envolve, mais do que o pensa o homem, a sua responsabilidade quanto ao futuro.

Deus colocou o filho sob a tutela dos pais, a fim de que estes o dirijam pela senda do bem, e lhes facilitou a tarefa dando àquele uma organização débil e delicada, que o torna propício a todas as impressões.

 Muitos há, no entanto, que mais cuidam de aprumar as árvores do seu jardim e de fazê-las dar bons frutos em abundância, do que de formar o caráter de seu filho.

Se este vier a sucumbir por culpa deles, suportarão os desgostos resultantes dessa queda e partilharão dos sofrimentos do filho na vida futura, por não terem feito o que lhes estava ao alcance para que ele avançasse na estrada do bem.”
 (O Livro dos Espíritos, questão 582.)

Uma melhor compreensão da missão conferida aos pais podemos aquilatar lendo o seguinte trecho de uma mensagem escrita pelo Espírito de Santo Agostinho e publicada em O Evangelho segundo o Espiritismo:

“Ó espíritas!
 compreendei agora o grande papel da Humanidade; 

compreendei que, quando produzis um corpo, a alma que nele encarna vem do espaço para progredir;

 inteirai-vos dos vossos deveres e ponde todo o vosso amor em aproximar de Deus essa alma;

 tal a missão que vos está confiada e cuja recompensa recebereis, se fielmente a cumprirdes.

Os vossos cuidados e a educação que lhe dareis auxiliarão o seu aperfeiçoamento e o seu bem-estar futuro.

Lembrai-vos de que a cada pai e a cada mãe perguntará Deus:

Que fizestes do filho confiado à vossa guarda?

Se por culpa Vossa ele se conservou atrasado, tereis como castigo vê-lo entre os Espíritos sofredores, quando de vós dependia que fosse ditoso.

 Então, vós mesmos, assediados de remorsos, pedireis vos seja concedido reparar a vossa falta; 

solicitareis, para vós e para ele, outra encarnação em que o cerqueis de melhores cuidados e em que ele, cheio de reconhecimento, vos retribuirá com o seu amor.

 (...)“A tarefa não é tão difícil quanto vos possa parecer.

Não exige o saber do mundo.

Podem desempenhá-la assim o ignorante como o sábio, e o Espiritismo lhe facilita o desempenho, dando a conhecer a causa das imperfeições da alma humana.

Desde pequenina, a criança manifesta os instintos bons ou maus que traz da sua existência anterior. 

A estudá-los devem os pais aplicar-se.

Todos os males se originam do egoísmo e do orgulho.
 Espreitem, pois, os pais os menores indícios reveladores do gérmen de tais vícios e cuidem de combatê-los, sem esperar que lancem raízes profundas.
 Façam como o bom jardineiro, que corta os rebentos defeituosos à medida que os vê apontar na árvore.

Se deixarem se desenvolvam o egoísmo e o orgulho, não se espantem de serem mais tarde pagos com a ingratidão.”

 (O Evangelho segundo o Espiritismo, cap. XIV, item 9.)
Lendo as lições acima, trazidas até nós pelas duas mais importantes obras da doutrina espírita, não nos causa nenhuma estranheza a conhecida advertência que o Eclesiastes, referindo-se à juventude de todas as épocas, consignou:

“Alegra-te, jovem, na tua mocidade, e recreie-se o teu coração nos dias da tua mocidade, e anda pelos caminhos do teu coração, e pela vista dos teus olhos; sabe, porém, que por todas estas coisas te trará Deus a juízo.

Afasta, pois, a ira do teu coração, e remove da tua carne o mal, porque a adolescência e a juventude são vaidade.

Lembra-te também do teu Criador nos dias da tua mocidade, antes que venham os maus dias, e cheguem os anos dos quais venhas a dizer:

Não tenho neles contentamento.” (Eclesiastes, 11:9 a 12:1.)

Em face de tão claras e profundas recomendações, cabe-nos tão somente perguntar: –

Que fizemos do filho que Deus nos confiou?



quarta-feira, 26 de março de 2014

                              
                                 
Três velhinhas tomavam o chá da tarde.

Preocupada, ponderava uma delas:

– Minhas queridas, creio que estou ficando esclerosada. Ontem me vi com a vassoura na mão e não me lembrava se varrera a casa ou não.

– Isso não é nada, minha filha – comentou a segunda –, noutro dia, de camisola ao lado da cama, eu não sabia se tinha acabado de acordar ou se me preparava para dormir.

– Cruzes! – espantou-se a terceira. – Deus me livre de ficar assim!

E deu três pancadas na mesa, com o nó dos dedos, toc-toc-toc, enfatizando:

– Isola!

Logo emendou:

– Esperem um pouco. Já volto. Tem gente batendo na porta!

Pois é, leitor amigo, parece que velhice é sinônimo de memória fraca, raciocínio lento, confusão mental…

Sabemos que a evocação do passado e o registro do presente dependem das conexões entre os neurônios, as chamadas sinapses. Há uma perda de ambos com o passar do tempo.

O cérebro também envelhece.

Mas, e o Espírito? 

Não reside no ser pensante, imortal, a sede da memória? 

Não está ele isento de degeneração celular?

Obviamente, sim!

Ocorre que, enquanto encarnados, dependemos do corpo para as inserções mnemônicas na dimensão física, tanto quanto o pianista depende do piano ou o orador depende das cordas vocais.

Uma das razões pelas quais não temos consciência das vidas anteriores é a ausência de registros relacionados com elas em nosso cérebro.

Pelo mesmo motivo, temos dificuldade para lembrar as experiências extracorpóreas, durante as horas de sono, na emancipação da Alma, como define Allan Kardec.

Natural, portanto, que tudo o que afeta a massa cinzenta, perturbe a memória – acidentes, concussões cerebrais, distúrbios circulatórios, doenças degenerativas, envelhecimento...

Sabe-se hoje que é possível prolongar o viço, cultivando existência saudável – ginástica, alimentação adequada, disciplina de trabalho e repouso, ausência de vícios…

Da mesma forma, podemos conservar, até a idade provecta, a acuidade mental, desde que nos disponhamos a elementar cuidado:
 exercitar os miolos. 

Todo labor intelectual, que implica em movimentação dos neurônios, é salutar.

Neste aspecto, os pesquisadores têm valorizado a leitura. 

A concentração exigida, quando lemos, é um exercício prodigioso para o cérebro, tanto mais vigoroso quanto maior o grau de concentração e o empenho por digerir o que lemos.

A experiência demonstra: as pessoas que cultivam o hábito de ler chegam mais longe com lucidez, preservam a memória, não obstante o avançar dos anos.

Sem movimentar os neurônios a velhice perde-se em sombras.

É preciso conservar a vivacidade, o ideal de aprender, de desdobrar experiências, considerando que sempre é possível ampliar horizontes, fazer novas aquisições.

Alguém poderia contestar, afirmando que seria pura perda de tempo na idade provecta, em contagem regressiva para vestirmos o pijama de madeira e nos transferirmos para a cidade dos pés juntos.

Ocorre que lá ficarão apenas nossos despojos carnais. Espíritos imortais, habitaremos outros planos do infinito. 

Portanto, nenhum aprendizado será ocioso.

Um velhinho de oitenta anos propôs-se a tocar piano.

 O professor alertou:

– Estudo longo e cansativo. 

Pela ordem natural, o senhor não usufruirá desse aprendizado.
E ele, animado:

– De forma alguma! Se não der para tocar aqui, serei pianista no Além!

Certíssimo! 

É assim que crescemos espiritualmente e mantemos “azeitadas” as engrenagens da mente, para que nunca nos falte esse élan que valoriza e torna feliz a existência, promovendo nossa evolução.

Praza aos céus seja essa a marca de nossos dias.

Toc-toc-toc!

Livro Abaixo a Depressão - Richard Simonetti

segunda-feira, 24 de março de 2014


                     SOFTWARE PARA A ETERNIDADE

O instinto independe da inteligência?

Precisamente, não, por isso que o instinto é uma espécie de inteligência. É uma inteligência sem raciocínio.

Por ele é que todos os seres provêm às suas necessidades.
Questão nº 73

Um dos inventos mais prodigiosos de nosso século é o computador, cada vez mais sofisticado, beneficiando todos os setores da atividade humana.

Minha sensação, quando comecei a usá-lo, aposentando velha máquina de escrever, foi de quem deixa uma carroça para usar moderno carro importado.

O computador está presente nos lares, nas comunicações, nos veículos, facilitando a vida, tornando-a mais confortável e segura.

Há cálculos relacionados com a astronomia e viagens espaciais que demandariam meses. Hoje computadores os fazem em horas. Os mais possantes, em minutos.

No século XVI o genial astrônomo alemão Johannes Kepler levou quatro anos para calcular a órbita de Marte, uma elipse perfeita. Um computador faria os mesmos cálculos em quatro segundos.

-Só falta falar - diz boquiaberto um usuário noviço.
Está enganado.

Já existem computadores que transformam os impulsos eletromagnéticos em voz humana sintetizada. Em processo inverso atendem ao comando do operador.

***

Curiosamente, não obstante os prodígios que realiza, o computador não tem nada de inteligente.
É até muito obtuso - só faz o que mandamos, segundo as características do software, seu sistema de rotinas e funções.

Lembra o instinto, que é uma programação para os seres vivos, relacionada com conservação, reprodução, prole, hábitat, sociedade...

Nenhuma espécie animal precisa de orientação para o acasalamento. Podemos criar um cão sem jamais ter contato com qualquer animal. Quando o colocarmos junto a uma cadela no cio, ele exercitará o ato sexual instintivamente, sem dificuldade.

Aves migratórias viajam milhares de quilômetros, em determinada época do ano, fugindo dos climas frios ou buscando uma região para o acasalamento.

No período denominado piracema, grandes cardumes de peixes sobem os rios até as nascentes para desova, enfrentando predadores e corredeiras.

Quem orienta essas aves e peixes?
Ninguém.

Eles obedecem a um software inscrito em sua consciência embrionária e que no momento oportuno comanda suas ações, levando-os a fazer exatamente aquilo para o qual foram programados.

Em algumas espécies há o instinto gregário.
Temos, por exemplo, a sociedade das abelhas, que faz a admiração dos entomologistas.

A colméia é uma autêntica cidade, com notável senso de cidadania entre as abelhas. Todas têm uma função definida, as operárias, as guerreiras, a rainha...

Há um conselho que decide quem é quem? Não. Apenas cumprem o software da espécie.

***
Uma característica em comum nas espécies é a sua imutabilidade relativa. Não mudam ou o fazem mui lentamente como se a Natureza houvesse elaborado para elas um programa especial, quase definitivo.

Exemplo - as baratas.

São fósseis vivos, porquanto vivem na Terra há milhões de anos. Desde que surgiram têm a mesma tendência de se infiltrarem em vãos minúsculos e escuros e de se nutrirem com restos de alimentos.

Mudou apenas o comportamento feminino em relação a esses ortópteros onívoros. Nos primórdios da humanidade, na idade da pedra, as mulheres apreciavam as baratas como petiscos. Hoje sentem horror delas.

Essa idéia de relativa imutabilidade fica meio estranha para quem está familiarizado com Darwin.

Em A Origem das Espécies o grande naturalista inglês proclama que todos os seres vivos passam por mutações. O aparecimento do Homem teria sido a culminância de um processo evolutivo que começou com organismos extremamente simples. Isso está suficientemente demonstrado, não é mera teoria.

Ocorre que a programação de cada espécie é um segredo guardado na intimidade dos genes. Os Espíritos superiores que supervisionam a vida na Terra têm acesso a esse “painel de controle”. 

Ao longo de milhões de anos, alteram a programação de alguns indivíduos, promovendo mutações que culminam com o aparecimento de novas espécies, enquanto seus pares permanecem imutáveis, cumprindo o planejamento celeste.

A evolução não seria, assim, mera decorrência de uma seleção natural, como pretendia Darwin, ou uma questão de adaptação ao meio, como ensinava Lamarck.

Diga-se de passagem que o Homem começa a entrar nessa câmara íntima onde está o “painel”. Já é capaz de interferir na intimidade dos genes. Pode assim, alterar características de uma espécie, e conseguirá criar novas espécies.

O problema está em suas motivações e competência.

Ele não está interessado em colaborar com Deus. Cuida apenas de interesses imediatistas. Além do mais, nesse terreno é uma espécie de aprendiz de feiticeiro, mexendo com forças que desconhece, e - o que é pior - sem um princípio ético, de respeito à Natureza.

***
 Costuma-se dizer que um dos problemas do ser humano está em trazer resquícios de programações da animalidade inferior.
É a minha natureza - diz o indivíduo agressivo, como se trouxesse algo do leão.

O irrequieto revela o temperamento dos macacos.
O indolente guarda a pachorra do bicho-preguiça.

O que se compraz com a desgraça alheia lembra a risada sinistra da hiena
.
Velha fábula, atribuída a Esopo, é bem ilustrativa.
Um escorpião, desejando transpor largo rio, pediu à rã que o ajudasse.

-De modo algum. Você vai me picar e morro envenenada.
O rabo torto a tranqüilizou.

-Seria um tolo se fizesse isso, porquanto eu também morreria. Não sei nadar.

Argumento lógico. A rã decidiu atendê-lo.
Quando estavam no meio do rio, o escorpião picou sua benfeitora, que surpreendida, já em agonia, reclamou:

-Que loucura, você me envenenou e agora vai morrer afogado!

-Desculpe. É a minha natureza...

Assim poderiam explicar os homens suas atitudes inconseqüentes, resquícios da animalidade primitiva.

***
 Só há um detalhe. Uma pequena diferença:
Somos seres pensantes.

Temos a capacidade de comandar nossas vidas.

Age instintivamente, dando vazão a impulsos de animalidade inferior, aquele que não exercita a razão, recusando-se a distinguir o certo do errado, o que deve ou não fazer.

Diz o apóstolo Paulo na Primeira Epístola aos Coríntios:

Quando eu era menino, falava como menino, sentia como menino, pensava como menino; quando cheguei a ser homem, desisti das coisas próprias de menino.

É chegado o tempo de deixarmos o comportamento instintivo, próprio de nossa infância espiritual, e assumirmos a condição de seres pensantes, criados para o Bem e a Verdade, que compõem um software básico, um programa imutável instalado pelo Criador em nossa consciência.

Podemos ignorá-lo ou descumpri-lo, já que detemos o livre-arbítrio, mas sempre retornaremos a ele, após amargas frustrações, até que completemos as transformações íntimas que façam resplandecer nossa natureza espiritual como filhos de Deus.


Livro A Presença de Deus

domingo, 23 de março de 2014

                   Respeitar sim, repetir não

Sabemos que os textos evangélicos sofreram muitas alterações ao longo dos séculos, para atender a interesses do mundo, ditados pelo culto do poder e da ambição, ou até pela fé ingênua e cega que pretendia converter, fazendo concessões.

Nesse processo, incorporaram-se rituais e crenças mágicas, muito anteriores a Jesus, dando-se-lhes estatuto cristão.

A fé raciocinada encara sem medo esses fatos, já constatados pela História, e busca a essência dos ensinamentos do Mestre. Aliás, já nos advertia Kardec, no primeiro parágrafo da introdução a “O Evangelho segundo o Espiritismo”:

 “Podem dividir-se em cinco partes as matérias contidas nos Evangelhos: os atos comuns da vida do Cristo; os milagres; as predições; as palavras que foram tomadas pela Igreja para fundamento de seus dogmas; e o ensino moral. 

As quatro primeiras têm sido objeto de controvérsias; a última, porém, conservou-se constantemente inatacável”.

O ensino moral do Evangelho é inatacável, sem dúvida. É o evangelho propriamente dito. 

O mais pode até ser lenda, ou é, pelo menos, questionável, passível de investigação histórica e científica. 

Portanto, não há por que se repetirem, em nosso meio, velhas abordagens fantasiosas que vestem Jesus de magia e ilusão.

 O Mestre se basta, dispensa enfeites que não concorrem para amadurecer o Espírito, como é o caso das festas marcadas no calendário oficial.

Tais festas representam uma tradição dos católicos e, embora merecendo nosso respeito, não fazem o menor sentido para a Doutrina Espírita. Portanto, não se justifica nas escolinhas de evangelização a comemoração de datas como a Páscoa, nos moldes do convencionalismo cristão.

É certo, porém, que as crianças trazem informações veiculadas pelos meios de comunicação, pela família, pela escola e que não devemos agredi-las com doutrinações radicais, negando tudo o que conhecem e vivenciam no mundo. 

Mas podemos aproveitar esses saberes, para construir o novo ou resgatar, adequadamente, o ponto de vista histórico e cultural.

No caso da Páscoa, é preciso situá-la entre as  festas ligadas a rituais de fertilidade e seus símbolos, dissociando-a da figura de Jesus, com o cuidado de não repetir a crença de que Ele a instituiu ou de que lhe deu outro sentido, assumindo a posição do cordeiro sacrificado nessa época pelos judeus, para justificar a ressurreição e dar ao corpo do Deus a função de alimento.

O mito do deus morto e do deus ressurrecto é comum a muitas culturas da antiguidade. Quando Jesus encarnou entre nós, essa crença já era conhecida e os judeus, de sua parte, haviam conferido a ela características próprias, associando-a a episódio que remonta ao tempo de  sua submissão ao Egito.

Jesus insere-se naquele contexto, é verdade, e participa dos eventos da época, mas frisa: “Meu reino não é deste mundo”. E mais: “Não quero sacrifício, mas misericórdia.”

Recuperemos a formação da palavra sacrifício: sacro + ofício. Na realidade, o Mestre da Galiléia rompe o ciclo de repetição dos velhos rituais e propõe o mandamento do amor. Misericórdia é expressão do amor. 

Não cobrava Jesus oferendas nos templos, nem rituais mágicos, como aquele que se realizava na páscoa. Não pretendia que se lhe oferecessem ofícios sagrados, mas sim que praticássemos a caridade.

A Terceira Revelação nos convida, através do Espírito de Verdade: “Amai-vos e instruí-vos”. Portanto, o conhecimento que nos traz a própria Doutrina assinala um compromisso com o estudo, ensejando a oportunidade de superar uma mentalidade mágica para alcançar o direcionamento da fé, pela razão. Assim, a evangelização espírita não precisa comemorar as festas da tradição cristã, mas deve constituir a festa de todo dia, porque oferece roteiro seguro para a vida e suas surpresas.

Este terceiro milênio do calendário ocidental está marcado, ao que parece, por descobertas científicas arrojadas e por inquietantes constatações da História, provocando a derrubada de velhas crenças.

 Se, inadvertidamente, repetimos tais crenças na Casa Espírita, estaremos entravando o progresso e perdendo a chance de esclarecimento que o próprio Espiritismo nos oferece.

A criança e o jovem precisam desenvolver uma fé robusta e vigorosa que resista não só aos ventos das novidades – com as quais são alvejados pela escola, pela mídia, pela comunicação virtual – mas também aos embates da vida. Educar-se pelo Evangelho à luz do Espiritismo é abrir uma janela para o futuro, é atravessar a linha do horizonte da acomodação, é libertar-se do velho círculo das ilusões.


Respeitar sim, repetir não. Essa deveria ser a postura dos evangelizadores na casa espírita, diante dos atavismos da tradição cristã.

RITA CÔRE

sexta-feira, 21 de março de 2014

                   Você sabe quem é, mas sabe o que é?


              A morte amedronta tanto o ser humano, que este assume posturas as mais variadas, desde aquelas infantis, em que nega toda a sua maturidade, até outras em que chega a negar a sua condição de ser racional.

 É profundamente estranho que essa criatura, que se pavoneia de ser o rei da criação, se mostre tão dolorosamente despreparada diante da única certeza comum a todos os seres humanos.

Ao interrogarmos uma pessoa onde quer ser enterrada quando morrer, certamente ouviremos como resposta a designação de um local de sua preferência. Ao ser interrogada sobre o destino da sua alma, certamente responderá que irá para o céu. 

Mas a fragilidade desse posicionamento é facilmente demonstrável diante de um simples questionamento: "E se ela não for para o céu e sim para o inferno, que isso importa a você, pois é ela quem vai e não você? 

Você não disse que deseja ficar enterrado em tal lugar?" Essas perguntas causam perplexidade e levam muitas pessoas, pela primeira vez, a usarem seu raciocínio no exame do assunto morte. Depois de algum tempo, costumam aparecer saídas como esta, ditas até em tom vitorioso:

 "Não sou eu quem vai ser enterrado em tal lugar; é o meu corpo!" Com essa afirmativa, ao invés de resolver o problema, agrava-o ainda mais..

O ar de vitória desaparece logo, ao se lembrar à pessoa que ela usou dois possessivos: meu corpo e minha alma. Ora, o possessivo, como bem ensinam as gramáticas, é a palavra que indica posse. Se há posse, há possuidor.

 Quem é o possuidor daquele corpo e daquela alma? Quem está habilitado a apresentar-se como proprietário e, conseqüentemente, reclamar-lhes a posse?

É exatamente essa falta de racionalidade que leva o homem a fugir do assunto, portando-se como a criança que, ao esconder o rosto atrás das mãos, imagina ter resolvido o problema do seu esconderijo. Ou como o avestruz que, segundo dizem, esconde a cabeça sob a areia, pensando assim fugir do perigo.

A criatura humana recusa-se a pensar, porque pensar na morte dói. Meditar, refletir sobre a questão, só pode revelar-lhe a sua fragilidade, o seu despreparo diante do magno assunto.

E qual a saída para o impasse?

 A única posição lógica é aquela de o homem assumir a sua condição de Espírito imortal, detentor da posse de um corpo físico, pelo qual ele se manifesta temporariamente, enquanto esse corpo tiver vida.

 É o Espírito que pensa, que aprende, que odeia, que ama. O corpo é mero instrumento de uso transitório. Pode-se até dizer que é descartável. O Espírito, não. Ele é imortal, indestrutível. É o arquivo vivo de todas as experiências vividas durante a romagem terrena.

Com o fenômeno da morte, o Espírito se afasta do corpo que já não mais lhe serve como instrumento, podendo dizer, na ocasião:

 "habitei esse corpo, serviu-me ele de vestimenta durante muitos anos".

 O corpo jamais poderá dizer: "Esse espírito que aí vai foi meu", simplesmente porque o corpo é matéria morta, que começa a decompor-se tão logo ocorra a morte.

Ao conscientizar-se dessa realidade, o homem passa a ter uma verdadeira consciência de imortalidade. Quanto mais medita sobre o assunto – desde que desligado de explicações de determinados teólogos – tanto mais adquire um estado de consciência a que se pode chamar "cidadania espiritual". Passa a sentir-se imortal. A morte já não mais se constitui naquele desastre terrível a bi- ou tripartir-lhe o ser: "Vou para debaixo da terra, minha alma vai para o céu e eu para não sei onde."

Ao assumir a cidadania espiritual, seus horizontes se alargam. Já não é apenas um homem, mas um Ser imortal, cujo destino não se prende apenas à Terra, vez que se sente pertencente ao Universo, às "muitas moradas da casa do Pai", conforme ensinamentos de Jesus. 

Assim pensando, chegamos à conclusão de que somos essencialmente espíritos, atualmente encarnados. Um dia deixaremos nosso corpo terrestre, como Jesus deixou o seu, conservando apenas o corpo celeste, imortal, conforme o Mestre, de forma genial ensinou e exemplificou!

Fica, entretanto, para muitas pessoas, uma pergunta que invariavelmente aparece quando são feitos estes comentários: Se o túmulo estava vazio e o corpo com que Jesus se apresentava era espiritual, onde ficara seu corpo físico? O Mestre, evidentemente, não podia esclarecer o assunto àqueles com quem convivera, conforme se comprova em suas palavras, já citadas: “Ainda tenho muito a vos dizer, mas não o podeis suportar agora.” (Jo, 16: 12).

Cumprindo a promessa de Jesus, o Consolador vem relembrar as suas lições e explicar muitos fatos que foram registrados pelos Evangelistas, mas que, à época, não foram compreendidos, como as súbitas aparições de Jesus no cenáculo e na pesca, e o seu desaparecimento desconcertante diante dos companheiros de caminhada a Emaús. 

Tais fatos, tomados por miraculosos por muitos teólogos, encontram no Espiritismo explicações claras e lógicas, não no campo das especulações teológicas, mas dentro da objetividade da Ciência, nas pesquisas do fenômeno de materialização – hoje chamado ectoplasmia pelos parapsicólogos – levado a efeito por vários cientistas, entre os quais se destaca a figura de Sir William Crookes o célebre físico inglês, que pôde provar que o Espírito Katie King, com seu corpo espiritual materializado, limitava-se dentro do plano material como se estivesse encarnado, tornando-se visível, audível e tangível.(“Fatos Espíritas”, William Crookes; “História do Espiritismo”, Arthur Conan Doyle).

Quanto ao desaparecimento do corpo físico de Jesus, pode-se ler esclarecimento sobre a dissipação de fluidos remanescentes em cadáveres, no livro “Obreiros da Vida Eterna”, de André Luiz (caps. 15 e 16). 

Trata-se de operação piedosa levada a efeito por benfeitores espirituais, que dissipam na atmosfera os fluidos remanescentes no corpo, antes do sepultamento, afim de resguardá-lo de profanação que poderia ser levada a efeito por Espíritos inferiores.

Fazendo-se um paralelo, é lícito supor que o próprio Mestre se haja encarregado de dissipar as energias remanescentes em seu corpo e, ao fazê-lo, desmaterializou-o completamente.

 É fácil entender que o corpo de Jesus não poderia ficar no túmulo, pois quando se divulgasse a notícia que o Mestre ressurgira da morte, ele seria fatalmente exposto pelos sacerdotes, a fim de negar a ressurreição, que, para quase todos, era apenas física.

 E não seria essa a resposta à pergunta crucial deixada no ar pelos cientistas que estudaram exaustivamente o Sudário de Turim, que apresenta impressa  a figura de um homem, cujas características coincidem com o que se sabe a respeito do corpo de Jesus, tanto no que tange às características físicas, quanto aos sofrimentos que lhe foram impostos, sem que hajam eles conseguido saber que tipo de fenômeno ocorreu na superfície do tecido para fixar, de maneira impressionante, aquela imagem?

Entretanto, é inegável que essa impressão no tecido não foi provocada por radiação, nem por calor, nem por tintura, nem por pintura. Até hoje não se sabe o que provocou aquelas impressões que permitem a um computador restaurar a figura de um cadáver que fora flagelado e crucificado, antes de ser deposto sobre aquele pano.

Concluindo, pode-se dizer que o Espiritismo, ao decodificar a mensagem de imortalidade deixada por Jesus, esclarece-nos a respeito do que verdadeiramente somos:  Espíritos imortais, temporariamente encarnados em corpos mortais!          




JOSÉ PASSINI – O CONSOLALDOR

quarta-feira, 19 de março de 2014

                                                    A chave do céu

“O Espiritismo contribuirá para a reforma da humanidade pela caridade." -
 Allan Kardec, Revista Espírita/1866.

Ao considerarmos que a origem e destino de tudo vêm de Deus, percebemos que esse laço une, não só as criaturas a Ele, mas também entre si, submetendo-as a um trabalho de avanço comum através da lei de solidariedade universal. 

Esse princípio de solidariedade de que todos fomos dotados, se expressa na forma de sensibilidade que nos leva a compartilhar os problemas alheios, ter compaixão de suas dores e procurar aliviá-los. 

O grau de sensibilidade varia de indivíduo a individuo, dando a compreender que, quanto mais evoluído o ser, mais solidário ele é. 
Ao consagrar a máxima “ama ao teu próximo”, Jesus instituiu como dever, necessário e rigoroso, a prática da caridade. 

Como expressão máxima de solidariedade “a caridade é ato de nossa submissão à lei de Deus; é o sinal de nossa grandeza moral; é a chave do céu”, como bem lembra Lacordaire¹. 

Ninguém que tenha um sentimento de espiritualidade nega o princípio da solidariedade, mas, grande parte procura se esquivar de sua prática, especialmente quando é necessária no seu aspecto material e para isso invoca alguns pretextos: 

1º) Alegando que as coisas do coração ou do espírito são mais importantes que as coisas materiais, procuram somente consolar aflições por palavras e conselhos úteis, sem atentar para os consolos materiais.  

Com certeza, se a causa for moral é no coração que iremos auxiliar; mas se for a fome, o frio, a doença, ou seja, se as causas forem materiais, não serão doces palavras que irão acalmá-las.

Deus, o Ser supremo, coloca ao homem na Terra o socorro dirigido à nossa alma e o socorro dirigido ao nosso corpo.

 Ligou-nos à Sua paternidade para que pudéssemos praticar a lei de caridade uns para com os outros. É somente porque o egoísmo fala mais alto que o homem não exerce esse sagrado dever de solidariedade.

Um pensador refletiu:

 “Cada abelha tem o direito à porção de mel necessária à sua subsistência; e se entre os homens a alguns falta o necessário, é que a justiça e a caridade desapareceram no meio deles”.

2º) A impossibilidade de descobrir as reais necessidades em meio a tantas necessidades simuladas é outra justificativa. 

Essa explicação não tem sansão da nossa consciência. 

Por ser a caridade umdever de quem tem condições, ela se torna um direito do necessitado. Para conhecer as necessidades reais do próximo, se torna imperioso sair do comodismo do conforto e ir ao encontro das carências do necessitado. 

Como a caridade é infinita como Deus, do qual emana, não admite nenhuma outra possibilidade. Pode se enganar o mundo por logo tempo, momentaneamente a consciência, mas jamais se enganará a Deus.  

Tudo aquilo que desprezarmos nessa existência, sofrer-se-á consequencias no futuro; quando poderá ser o necessitado e receber o mesmo desprezo do egoísmo.

3º) Desconhecer a medida do que dar é a terceira justificativa. Afinal, o que me pertence e o que deve ser distribuído para aliviar os mais carentes? 

“Do vosso patrimônio como do vosso trabalho, só uma coisa vos é permitido tirar em vosso proveito: o necessário; o resto cabe aos pobres.

 Eis a lei.
Novamente é Lacordaire quem alerta, reforçando que o necessário deve ser medido sem exageros. 

E quanto à família?

 A família e os filhos são os nossos primeiros necessitados e é a eles que devemos atender em primeiro lugar. Velar pelo futuro dos filhos, proporcionar dias calmos e tranquilos, deixar-lhes uma pequena herança, se possível, que lhes permita continuar o bem que se começou, é legítimo, e fazem parte das ocupações da paternidade. 

Mas jamais através do exagero devem ensiná-los a viver egoisticamente, somente para si.  

De acordo com a hierarquia dos instintos do coração, atender também aos genitores em suas necessidades, aos irmãos da carne, aos amigos queridos e, na sequência, todos os pobres, a começar pelos mais carentes.

Ter muito cuidado para não favorecer demasiadamente a uns com exclusão dos outros. Partilhando equitativamente os benefícios é que se demonstra sabedoria e cumprimento da lei divina de solidariedade em relação ao próximo

O grande Rousseau afirma: “Para mim sei que todos os pobres são meus irmãos e que não posso, sem uma injustificável dureza, lhes recusar o fraco socorro que me pedem. Na maior parte são vagabundos, concordo. 

Mas conheço demais as penas da vida para ignorar por quantas desgraças os homens honestos podem encontrar-se reduzidos em sua sorte. 

E como poderia eu estar seguro de que o desconhecido que vem implorar assistência em nome de Deus talvez não seja esse homem honesto, prestes a perecer de miséria, e que a minha recusa vai reduzir ao desespero?

Quando a esmola que se lhes dá não é para eles um socorro real, seria, ao menos, um testemunho de que se é solidário com suas penas, um abrandamento à dureza da recusa, uma espécie de saudação que se lhes faz.” 

Tal é o pensamento do filósofo do século XVIII que, temendo ignorar um homem honesto, dá a todos, pois considera todos como irmãos.

“A caridade é uma bela e doce vida, é a vida dos santos, é a chave do céu.” 

Referência:
¹ KARDEC, Allan. Revista Espírita – Jornal de Estudos Psicológicos. Ano VIII – 1865, agosto. Rio de Janeiro: Federação Espírita Brasileira, 2004.   

 LUIS ROBERTO SCHOLL