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quarta-feira, 9 de setembro de 2015

Nós e os animais

“Iahweh Deus modelou então, do solo, todas as feras selvagens e todas as aves do céu e as conduziu ao homem para ver como ele as chamaria: cada qual deveria levar o nome que o homem lhe desse.” (Gênese, 2-3)

A Bíblia relata que os animais foram criados por Deus de maneira semelhante à criação do homem. 

Esse sentido figurado da modelagem pode ser interpretado, na concepção evolutiva, como o início da vida na água e a transição desta para a terra, com a formação de organismos mais complexos.

 Nesse ponto, o criacionismo não contradiz a teoria evolucionista, excetuando na ideia de aparecimento quase simultâneo (humanos e animais), com ligeira primazia temporal ao homem. 

No evolucionismo, organismos marítimos teriam precedido aos demais e o homem, ao contrário da descrição bíblica, foi o último elo da corrente.

A convivência entre o homem e o animal demorou muito tempo para ocorrer. É possível supor que o interesse recíproco entre eles tenha se desenvolvido por fatores ligados à sobrevivência. 

Os animais, em período de escassez de comida, aproveitavam as sobras de alimentos deixados por humanos e, assim, rondavam os grupos humanos em deslocamento. 

Por seu turno, o homem mantinha-se atento quanto à proximidade dos animais, observando seus comportamentos, caçando-os para saciar a fome, especialmente quando passaram a dominar o fogo.

Essa proximidade, que foi se estreitando, levava a repetidas escaramuças, algumas vezes com perdas de ambos os lados. 

Por outro lado, com frequência, nossos antepassados copiavam estratégias dos animais como, por exemplo, os comportamentos dos antropoides na localização de alimentos, dos roedores nos debates das primeiras coberturas dos troncos de plantas até a obtenção da polpa comestível, das aves e insetos, nas elaborações de armadilhas e disfarces para evitar predadores etc. 

Pode-se supor que os resultados dessas observações facilitaram as primeiras tentativas de domesticação de algumas espécies. Esse ganho, ligado à sobrevivência, impulsionou o homem para o domínio do mundo animal, levando-o a supor-se, equivocadamente, como rei da criação.

Já há muito tempo, o homem dedica-se também à criação de várias espécies destinadas ao abate, tais como a bovina, a suína, a avícola e a marítima. 

Nesse negócio rentável, os animais crescem em número preocupante, pois, para isso, precisam de extensas áreas de terras desmatadas, além de recursos hídricos, cinco vezes maiores do que o necessário para produzir a mesma quantidade de cereais (FAO/Wikipédia). 

Esses são apenas um dos problemas relacionados à forma como nós, os humanos, lidamos com os animais. Percebendo a gravidade desses problemas, inúmeras pessoas se organizaram na formação de entidades de defesa do bem-estar e da vida animal. 

Esses movimentos cresceram e influenciaram a legislação, de modo que temos, hoje, responsabilidades sociais bem definidas em relação aos animais e isso representa um avanço, contudo, não ainda suficiente.

No lado oposto à criação e matança de animais para o consumo, temos problemas nos cuidados com os chamados animais de estimação. Essa também é uma relação delicada, que será abordada a seguir.
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Certo dia uma universitária relata ao professor o cuidado que dispensa à sua cachorrinha. 

Conta que o segundo dormitório do apartamento, em que reside com seu marido, pertence à sua mascote e que esta somente vai dormir após ter seus dentes escovados por ela (“mamãe”) e receber afagos do dono (“papai”). 

O professor aproveita-se de uma pausa na descrição que detalha esses excessos de mimos e diz à jovem: Vocês precisam de um filho para deixar de brincar de mamãe-papai.

Considerando que essa falsa maternidade vem se alastrando, a sugestão do professor tem sentido, principalmente ao se levar em conta a impossibilidade de o animal preencher todos os requisitos envolvidos na troca entre pais-filhos. 

É sintomático que, em alguns países europeus, a diminuição da natalidade tem uma relação direta com aumento da população de animais de estimação. 

Esse fenômeno se tornou um excelente negócio em quase todo o mundo, gerando ofertas que vão das rações e medicamento a objetos que incluem produtos de higiene, roupas e brinquedos semelhantes aos usados por uma criança, o que reforça o sentimento maternal. 

O exagero chega ao ponto de uma convivência promíscua entre humanos e animais, com estes coabitando camas e partilhando momentos de refeições.

Por que pessoas “amam” tão intensamente os animais, como cães, gatos, coelhos, macacos, tartarugas etc.? Primeiramente porque é fácil controlá-los e manejá-los. 

Podemos dispor deles conforme nosso humor: brincamos e os afagamos a qualquer momento e, também, a qualquer momento os deixamos de lado. 

Treiná-los em obediência (“deite, pegue, aqui, dê a pata”) é muito mais fácil do que educar uma criança. Se, por algum motivo, não formos bem-sucedidos, existem clínicas que dispõem de profissionais prontos a nos socorrer mediante, é claro, a remuneração ditada pela lei de “oferta e procura”. 

Em segundo lugar, esse “amor” aos animais reside no enorme bem-estar que eles produzem a todos os seus donos. É muito prazeroso brincar ou apenas observar os animais. 

A terapia já descobriu isso há um bom tempo e os vem utilizando como recursos terapêuticos para diferentes problemas e incapacidades do homem.

A doutrina espírita entende a vida animal como um dos elos do processo evolutivo no qual estagia o espírito. 

Nesse sentido, dentro da condição humana, ainda temos muito a percorrer. Mais do que discutir nossos direitos sobre a vida animal, se é que temos algum, precisamos repensar nossos deveres. 

De modo geral, entre outras tarefas coletivas, uma das mais importantes relaciona-se aos cuidados com a fauna e flora do planeta. 

Para repensar essa relação com os animais, antes de tudo é necessário esquecer a vaidosa noção de reis da criação. Somente assim poderemos ser admitidos na posição de defensores do mundo animal, equilibrando essa relação que parece ser menos meritória ao homem.

 ALMIR DEL PRETTE