kardec - o educador

Loading...

sábado, 23 de fevereiro de 2013

0 VENENO DA TRAIÇÃO



“Todo aquele que repudia sua mulher e casa com outra, comete adultério; e quem casa com a que foi repudiada pelo marido, também comete adultério.” (Mateus 5:32)
 
A traição foi motivo de muitos escândalos em todas as épocas da humanidade, não somente a traição no campo do sentimento, mas nos negócios, nas amizades, nos ideais em todos os aspectos humanos. Trair, seja a confiança, um relacionamento, uma amizade, sempre deixa marcas profundas, sequelas difíceis de apagarem das lembranças; só nos ofendemos por aqueles a quem realmente amamos e que por uma ocasião tenha nos ferido.

O termo traição pode ser entendido como deslealdade, desapontamento da expectativa de alguém; é desvendar os segredos de outrem, entregar um amigo aos seus inimigos; distanciamento; é também decepcionar um amigo, além de ser contada como engano e infidelidade, perfídia, desonestidade. A traição é baseada na mentira. É um dos piores, senão o pior golpe que alguém pode receber de um amigo ou de uma pessoa que se considera ou que se ama.

Há personagens que simbolizam tal atitude, o traidor Joaquim Silvério dos Reis, que entregou Tiradentes, o Alferes mártir do movimento separatista da Inconfidência Mineira, aos seus julgadores e executores, os representantes da Coroa Portuguesa. Por razões políticas, Joana D'Arc foi traída por companheiros franceses. Aprisionada, foi acusada pelos ingleses de heresia e bruxaria, para depois ser condenada por um tribunal da Igreja e queimada viva em Ruão em 1431.

Antes da publicação do “O Livro dos Espíritos”, Allan Kardec é orientado pelo Espírito de Verdade. Ele diz no livro “Obras Póstumas” que: “a missão dos reformadores é cheia de escolhos e perigos; a tua é rude; previno-te, porque é ao mundo inteiro que se trata de agitar e de transformar. Não creias que te seja suficiente publicar um livro, dois livros, dez livros, e ficares tranquilamente em tua casa; não, é preciso te mostrares no conflito; contra ti se açularão terríveis ódios, implacáveis inimigos tramarão a tua perda; estarás exposto à calúnia, à traição, mesmo daqueles que te parecerão mais dedicados; as tuas melhores instruções serão impugnadas e desnaturadas; sucumbirás mais de uma vez ao peso da fadiga; em uma palavra, é uma luta quase constante que terás de sustentar com o sacrifício do teu repouso, da tua tranquilidade, da tua saúde e mesmo da tua vida, porque tu não viverás muito tempo”.

Allan Kardec então escreve uma nota, no dia 1° de janeiro de 1867, dizendo que: “Passados dez anos e meio depois que esta comunicação me foi dada, e verifico que ela se realizou em todos os pontos, porque experimentei todas as vicissitudes que nela me foram anunciadas. Tenho sido alvo do ódio de implacáveis inimigos, da injúria, da calúnia, da inveja e do ciúme; têm sido publicados contra mim infames libelos; as minhas melhores instruções têm sido desnaturadas; tenho sido traído por aqueles em quem depositara confiança, e pago com a ingratidão por aqueles a quem tinha prestado serviços. A Sociedade de Paris tem sido um contínuo foco de intrigas, urdidas por aqueles que se diziam a meu favor, e que, mostrando-se amáveis em minha presença, me detratavam na ausência. Disseram que aqueles que adotavam o meu partido eram assalariados por mim com o dinheiro que eu arrecadava do Espiritismo. Não mais tenho conhecido o repouso; mais de uma vez, sucumbi; sob o excesso do trabalho, tem-se-me alterado a saúde e comprometido a vida”.

O discípulo Judas Iscariotes entregou o Cristo aos seus inimigos, os sacerdotes hebreus, com um beijo em sua face, ele é preso pelos romanos. É considerado culpado de sacrilégio pelo sumo sacerdote e entregue ao aparelho judicial romano, na pessoa de Pôncio Pilatos. Jesus é condenado, como se fosse um vulgar criminoso, à morte na cruz.

No momento mais difícil da vida do Mestre, Pedro sequer admite que havia convivido com ele, negando por três vezes. Judas, por sua vez, aproveita-se da proximidade de Jesus para denunciá-lo de modo mais eficaz e seguro. Se analisarmos bem, ambos são traidores porque traíram o Mestre, suas atitudes até podem ser explicadas, Pedro estava com medo e inseguro, sentindo-se fragilizado e inútil diante da prisão de Jesus, Judas enganou-se completamente sobre a mensagem do Mestre e por sua ação pacífica e mansa, esperando mais um líder político e belicoso, como o rei Davi.

Pedro e Judas eram seguidores do Mestre, indivíduos que foram escolhidos por ele para ajudar na divulgação da Boa Nova, exemplificando através das ações altruístas e pela conduta reta divulgando a mensagem libertadora e transformadora do Cristo. Muito mais do que apóstolos eram seus amigos, sujeitos que compartilhavam na sua mais profunda intimidade.

Todos nós invariavelmente possuímos imperfeições e fraquezas humanas e temos que entender os erros dos outros, porque podemos passar pela mesma situação. Podemos errar pelos mais diversos motivos, o que torna compreensíveis os erros, mas isso não altera e nem justifica a realidade gerada por uma ação errada.

No entanto, aquele que comete este ato tão condenável que é traição, por si só, já se condenou, pois o sofrimento, o abandono, a discriminação e o escândalo do ato são, às vezes, muito piores, gerando uma prisão íntima que é alimentada pelo remorso e pela própria consciência. Quando não vem, a “dor moral” que custa muito a passar. Às vezes doendo muito mais em quem cometeu o ato, do que na própria vítima. O algoz pelo erro se condena e se julga por duas vezes, por si mesmo e pelo outro.

O arrependimento e a culpa frequentemente são tão dolorosos processos que martelam nossos pensamentos; pelo relato de Mateus, não foi Jesus quem sofreu, mas Pedro e Judas é que sentiram o forte impacto do erro que cometeram. Porque o Mestre sabia o peso da reação perante as duas consciências, Jesus lhes perdoou.

Contudo, é evidente a diferença no modo como os dois lidaram com o erro que cometeram e com o remorso e o sentimento de culpa que sentiram. Judas não aguentou a pressão e suicidou-se, já Pedro tornou-se um grande líder da comunidade cristã. Judas infelizmente não suportou a força do próprio erro e caiu nas malhas da autodestruição, enquanto Pedro foi capaz de superá-lo e ir adiante.

Judas simboliza uma maneira destrutiva e pessimista de encarar as próprias faltas e imperfeições, enquanto Pedro mostra um modo mais altruísta de reagir.
A diferença entre os dois é que Judas não foi capaz de perdoar a si mesmo, de encontrar forças para ter esperança e coragem de seguir adiante, buscando no suicídio uma alternativa para fugir de suas falhas, gerando pelo ato mais dor e sofrimento.

O perdão é uma força libertadora e regeneradora, na medida em que nos dá uma oportunidade de tentarmos de novo e melhorar sempre. Rejeitar a si mesmo é negar a reabilitação íntima, é jogar fora a possibilidade de uma nova oportunidade de ser feliz e fazer diferente, é abandonar os sonhos, a esperança, é desperdiçar aquilo que temos de mais precioso: a vida que o criador nos deu, e isso já é, por si mesmo, uma punição estrondosa. Judas é um pouco de todos nós. Sua figura, por todo desespero e angústia que sofreu, não merece malhação, merece compaixão e compreensão.

São experiências dolorosas que nos pedem reconciliação com a nossa consciência e com aqueles que ferimos; nada pior do que lesar o outro no campo do sentimento; é uma das lições mais complexas de serem superadas, muitas vezes são décadas para se reconstruir um relacionamento rompido pelas marcas da traição, outras vezes são inúmeras reencarnações para se acertar os desatinos ocorridos no passado. A instituição chamada família sempre é o palco destes resgates, maridos e esposas, filhos e pais vão polindo as arestas e desfazendo as diferenças criadas em muitas existências pregressas.

As atitudes de uma pessoa estão diretamente ligadas à sua condição moral e evolutiva, a vida terrena gera as situações onde precisamos nos corrigir, surgindo de forma natural em consequência da nossa conduta, vítimas e algozes se encontrão e aí caberá a cada um lutar ou recair no mesmo erro.

A traição provém de vários fatores que levam para este ato: questões culturais, carências, insatisfação em relação a desejos e expectativas com o (a) parceiro (a), vingança, a busca pelo novo, o estímulo provocado pela sensação de perigo, ou mesmo de poder.

O ato de trair não precisa necessariamente consumar o ato sexual. Não compartilhar mais as regras de fidelidade com o parceiro já pode ser encarado como traição. Uma terceira pessoa presente nos pensamentos é uma traição. Cobiçar a mulher ou o homem alheio é uma forma de adultério, como nos orienta Mateus “Ouvistes que foi dito: Não adulterarás. Eu, porém, vos digo que todo aquele que olhar para uma mulher para cobiçar, já em seu coração cometeu adultério com ela. Como tratou Jesus a mulher adúltera?” (5:27-28).

Todo pensamento, palavra e ação que tomamos têm na sua consequência uma direção psíquica voltada para nós mesmos, porque todo pensamento é vida, com isso, tudo aquilo que projetamos retorna à sua origem, iniciando um tipo de comportamento condizente com aquilo que pensamos. Devemos ser responsáveis pelos nossos pensamentos e entender que podemos contribuir com os nossos mais íntimos desejos com a infelicidade ou a felicidade do outro.

Tudo começa no pensamento, Jesus fala da força do pensamento, considerando-o como algo concreto e real. Entendemos que tudo o que sai da mente como pensamento, sentimento, palavra e finalização da ação, retorna na mesma intensidade, pois projetamos os nossos desejos, sonhos e toda vontade, direcionando nossa fé, crenças e os nossos verdadeiros tesouros. Fé não é apenas algo relacionado ao divino, fé é tudo aquilo que você acredita, seja por temor ou amor.


REVISTA O CONSOLADOR Nº 122